Tânia, emigrante russa numa vila portuguesa
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Da Rússia para Portugal: entrámos em casa e na história de vida de Tânia

Quem gosta de boas histórias e de ver casas a ganharem uma nova vida, ficará certamente fã desta emigrante russa que se instalou em Portugal em 2024. Conversámos com Tânia para perceber o que a prende cá.

Tânia Martynova, de 40 anos, chegou a Portugal em fevereiro de 2024, vinda da Rússia. Dois anos após o início da guerra com a Ucrânia, decidiu partir — não apenas para escapar ao conflito, mas também à política, às leis e a tudo aquilo com que já não se identificava. Em Portugal encontrou finalmente alguma paz. E até mais do que isso.

Tânia encontrou uma casa antiga e decidiu que era ali que queria viver, a seu tempo, é claro. Primeiro são precisas muitas obras, intervenção que está a ser liderada por Tânia com muito pouca ajuda de fora. Há quem se entusiasme com o projeto e queira dar a mão, mas a emigrante russa prefere fazer tudo por ela própria, ao seu ritmo. 

Todo o processo é partilhando diariamente no Instagram, que se tornou num canal aliciante para quem gosta de ver a recuperação de espaços antigos. Afinal, uma casa antiga não é obra fácil, mas é precisamente o desafio de que Tânia precisava. 

A casa está longe de estar acabada, mas isso até é bom sinal. Vamos poder continuar a acompanhar o processo no Instagram e a conhecer melhor Tânia, mais famosa como a "emigrante russa numa vila portuguesa". Antes de te renderes ao português quase perfeito nas redes sociais, conhece Tânia Martynova através da entrevista cedida à VERSA. 

Quando é que veio para Portugal e por que razão?

Cheguei a Portugal no dia 8 de fevereiro de 2024. A razão principal é por não concordar com o que acontece agora no meu país: com a política, com as leis, com a guerra e outras coisas.

Qual a sua antiga profissão na Rússia?

Na Rússia era especialista em marketing e empresária. Trabalhei como empregada até 2014. Depois de 2014 sempre tive um negócio meu, normalmente ligado à criatividade e ao trabalho manual.

Por que razão decidiu comprar em Portugal uma casa para reabilitar e mostrar o processo nas redes sociais?

Decidi comprar uma casa em Portugal porque eu tinha algumas poupanças. Saí da Rússia para sempre, vendi o meu apartamento lá e percebi que em três anos todo o meu dinheiro ia acabar em rendas. Então tinha duas opções: gastar tudo em três anos ou comprar logo uma casa velha e restaurar devagar.

Comecei a mostrar tudo nas redes sociais. No início, escrevia no meu Instagram em russo, mas, depois, alguns vizinhos começaram a seguir a página. Eles diziam: “É interessante, mas nós não entendemos nada”. Nessa altura já estudava um pouco de português, então pensei: "Por que não tentar escrever também em português?". Para mim o Instagram em português é também uma forma de aprender mais a língua.

 

Qual a razão de se instalar numa vila? 

Escolhi este lugar porque a natureza aqui é muito parecida com o lugar da minha infância, onde nasci. Há florestas densas, colinas, e gostei muito.

Antes de escolher, viajei por quase todo o país e vi muitos lugares. Mas quando cheguei aqui, apaixonei-me logo e decidi ficar. Para além disso, aqui as casas são muito mais baratas do que perto das grandes cidades ou do oceano.

 

O que está a ser mais difícil neste processo de recuperação da casa?

No início a coisa mais difícil para mim foi a língua. Quando cheguei à aldeia só sabia dizer: "bom dia", "boa tarde", "boa noite" e "como está". Precisei de aprender rápido e o meu primeiro português foi português de construção. Agora brinco que no português de construção tenho nível C1, mas no português normal sou A2.

Outra grande dificuldade são os trabalhadores. Muitas vezes eles não vêm, ou fazem medições, mas não fazem orçamento. Às vezes fazem orçamento e depois desaparecem. Ou, se faço perguntas, eles ficam zangados e dizem: procura outro. É muito difícil falar com eles. No começo pensei que o problema era meu, mas no meu Instagram muitas pessoas disseram que aqui é sempre assim.

Quero encontrar trabalhadores que falem comigo, expliquem e façam o trabalho bem e a tempo.

Só isso, nada mais. Mas quando os trabalhadores não vêm e preciso fazer alguma coisa, procuro no Google, pergunto ao ChatGPT e aprendo sozinha. Num ano aprendi muito sobre construção.

 

Tem tido a ajuda dos portugueses na renovação da casa antiga?

Até agora ninguém me ajudou de graça no trabalho da casa. Só tive trabalhadores que fizeram coisas por dinheiro. Mas ajudam de graça alguns voluntários, imigrantes como eu, de países diferentes. Vieram pessoas da Bielorrússia, da Ucrânia, da Moldávia, da Rússia e de outros lugares.

Qual é o seu grande sonho para esta nova casa?

Eu quero muito terminar o restauro da casa, mas agora é difícil, porque faço tudo sozinha. O dia só tem 24 horas. Preciso de ganhar dinheiro para o restauro e para viver. Também trato de documentos: já tenho residência, mas agora tenho de trocar a carta de condução e tratar de outros papéis. Ao mesmo tempo preciso trabalhar na casa e viver a minha vida feliz.

No futuro, quando não precisar ganhar tanto dinheiro para obras e não precisar de trabalhar tanto na casa, vou só viver. Isso vai ser a realização do meu grande sonho: ter uma casa bonita pronta e aproveitar a vida na vila.

Alguma vez tinha feito algo do género na Rússia?

Na Rússia foi nunca fiz nada parecido. O máximo que fiz foi obras pequenas no meu apartamento: colei papel de parede. Aqui aprendo tudo de novo. Aprendo a pintar, a usar massa, a fazer reboco, a fazer impermeabilização. Liguei sozinha o lavatório da casa de banho, porque estava cansada de lavar a cara na cozinha. Também liguei a máquina de lavar roupa. Agora quero pôr o chão e pintar a casa por fora. Se conseguir, vou ficar muito orgulhosa. Na verdade, já estou orgulhosa até agora.

Esta será a primeira casa de muitas?

Na verdade, sonho também restaurar uma quinta grande, bonita, de construção antiga, com um terreno grande. Quero fazer um jardim bonito e talvez construir casinhas pequenas para receber pessoas. Sonho juntar pessoas de diferentes países, trocar experiências, provar comidas diferentes, cantar canções, fazer noites culturais. Vejo que as pessoas aqui têm interesse na minha cultura e eu tenho muito interesse na cultura portuguesa. Agora falo pouco português, então a troca é difícil, mas com o tempo vai melhorar. Penso que também para os portugueses seria interessante vir a um jantar com comida russa, ouvir música russa, ver filmes traduzidos para português.

Este é o meu sonho. Espero que o meu Instagram me ajude a realizar. Mas, primeiro, preciso de terminar as obras na minha casa. Depois vamos ver. A vida está sempre a mudar. Há dois anos não sabia que ia viver em Portugal. Queria sair, mas não pensava que ia comprar uma casa velha aqui e restaurar sozinha. Não pensava que ia ter força e energia para isso. Mas consegui.

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