Recentemente, um novo estudo da Universidade Sueca de Ciências Agrícolas, concluiu que os resíduos de cocaína que entram nos rios e lagos através das águas residuais podem alterar o comportamento dos salmões.
Isto levou-nos, como seria de esperar, a procurar respostas e a querer saber mais sobre o tema. Por exemplo, será que pode afetar os consumidores deste tipo de peixe? Pedimos ajuda a Vanessa Fonseca, Professora de Ciências ULisboa e investigadora do MARE.
Começou por confirmar que sim, a "poluição química de rios e zonas costeiras é um problema sério, e que tem sido abordado por várias equipas de investigação em Portugal, não de maneira sistemática, porque não há um sistema de monitorização estruturado", explica.
Já este estudo, em particular, "não avalia a presença de cocaína ou do seu principal metabolito no ambiente, mas dá conta dos potenciais efeitos comportamentais de uma exposição continuada de salmões juvenis a concentrações já medidas no ambiente aquático em alguns países".
"É, contudo, um trabalho ecológico importante, realizado por uma equipa com muita experiência de avaliação de poluentes ambientais, entre os quais substâncias psicoativas, e com os quais já colaboramos diretamente, inclusive para descrever a presença de fármacos neuroativos em estuários e peixes de Portugal", acrescenta.
| Fotografia: D.R.
Existe mesmo uma preocupação com os resíduos de cocaína que entram nos rios e lagos através das águas residuais? É um problema em Portugal?
Sim, existe uma preocupação real, mas deve ser enquadrada como parte de um problema mais amplo de poluição química aquática. A literatura internacional mostra que a cocaína e o seu principal metabolito, a benzoilecgonina, são detetados em águas superficiais em concentrações da ordem de dezenas a centenas de ng/L, usualmente associadas a cursos de água perto de grandes cidades.
Em Portugal, também há evidência de deteção de ambos os compostos, por exemplo nos estuários do Douro e do Tejo, onde se situam as maiores áreas metropolitanas de Portugal, mas as concentrações são usualmente baixas, na ordem da dezena de ng/L.
Existe, aliás, a Agência da União Europeia sobre Drogas (EUDA), anteriormente Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência (EMCDDA), sediada em Lisboa desde 1995, que apoia a União Europeia através da produção de conhecimento independente, alertas e recomendações sobre o consumo de drogas ilícitas, e que realiza uma campanha de monitorização ao longo de uma semana por ano de águas residuais afluentes das estações de tratamento de águas residuais (ETAR).
É importante ressalvar, que apesar da deteção frequente nos afluentes das ETARs um pouco por toda a Europa, o tratamento adequado das águas residuais permite a remoção relativamente elevada de cocaína e do seu principal metabolito, na ordem dos 70-90%.
Esta preocupação não se limita, contudo, à cocaína. Outros compostos, como antidepressivos e outros psicofármacos, bem como antibióticos, também são frequentemente detetados em águas residuais e superficiais e, em muitos casos, apresentam taxas de remoção muito mais baixas nas ETAR. E como tal temos evidência também da acumulação destes compostos em peixes recolhidos em diversos estuários da costa portuguesa.
Por isso, é essencial monitorizar a poluição química das águas superficiais, dos rios, dos estuários e também do mar, porque os efeitos ecológicos podem resultar da exposição a múltiplos contaminantes e não apenas a uma substância isolada.
Os efeitos verificados nos animais (nomeados no estudo) podem impactar os humanos se consumirem salmão contaminado?
Com base no estudo e na informação científica que dispomos atualmente, não há motivo para concluir que existe um risco relevante para o consumidor de salmão.
O objetivo do estudo foi perceber se estes contaminantes podiam alterar o comportamento dos peixes em meio natural, e os resultados apontam sobretudo para efeitos ecológicos, nomeadamente no aumento do movimento, e da dispersão na utilização do habitat.
Assim, o principal alerta é que alterações no comportamento dos peixes podem, num cenário de exposição continuada extremo, afetar a migração, reprodução ou a sobrevivência e disponibilidade do recurso.
O risco direto por alimentação, com base na evidência disponível, é muito baixo ou inexistente, até porque a maior acumulação de cocaína, tal como de outros fármacos neuroativos, ocorre no cérebro dos peixes e é muito menor ou residual no músculo, sendo que também não existe ainda informação sobre em que medida a confeção culinária reduziria a quantidade destes contaminantes no alimento.
Não descurando a necessidade de continuar a investigar o impacto direto que estes compostos podem vir a ter no futuro por via do consumo de produtos do mar ou de rio, a prioridade imediata é compreender e gerir os efeitos da poluição química sobre os ecossistemas aquáticos; e, por essa via, proteger a qualidade e sustentabilidade dos recursos de que dependemos. É uma perspetiva de saúde integrada: manter ou melhorar a saúde dos ecossistemas é também cuidar da nossa saúde.
