Saúde Mental | Fotografia: Unsplash
Nécessaire

Pais exaustos e filhos sempre ligados: o alerta de uma psiquiatra

Maria Moreno, médica psiquiatra, assina este artigo educativo sobre as relações - e a violência - entre pais e filhos.

Dr.ª Maria Moreno | Fotografia: D.R.

A pressão para ser o "pai perfeito" e o "filho perfeito" está a afastar-nos uns dos outros. Entre a culpa dos adultos e o imediatismo dos jovens, cresce uma geração que (só) sabe estar sempre "ligada", mas raramente está presente.

Há perguntas que não têm resposta simples — e talvez esta seja uma delas. Sempre que um jovem agride um pai ou uma mãe, o impulso é procurar explicações rápidas, causas únicas, frases que apaziguem a nossa angústia. Mas a verdade é que o comportamento dos jovens raramente cabe num rótulo instantâneo. Um acto violento nunca nasce do nada. É o resultado de camadas que se somam — biológicas, emocionais, familiares e sociais — até algo correr menos bem.

Os modelos constroem-se ao longo do tempo. E, embora os filhos não precisem de pais perfeitos, hoje em dia vive-se a ideia de que não há outra hipótese. A parentalidade tornou-se um território de exigência sem fronteiras. Vivemos rodeados de manuais, influencers e imagens idealizadas de famílias que nunca gritam, nunca se cansam e têm sempre tudo no lugar. A comparação é constante nas famílias como, de resto, em tudo hoje em dia. Cresce o medo de falhar e, com ele, a culpa. E é precisamente nessa culpa — nessa tentativa de corresponder a tudo e a todos — que muitos pais se perdem na relação com os filhos reais que têm à sua frente. Vivemos num tempo em que ninguém para. Trabalha-se, cuida-se, responde-se e tenta-se estar – sem dano - em todas as frentes. O verbo é sempre o mesmo: fazer. Descansar é um luxo e dar afecto uma tarefa. É aí que as fronteiras começam a esbater-se.

Os jovens, por sua vez, confundem cada vez mais presença com disponibilidade total, amor com ausência de limites, autonomia com ausência de orientação e proteção com ausência de exposição ao erro, à frustração e à dor. E confundem o presente com um lugar onde o amanhã e o propósito de vida parecem opcionais. Mas sejamos justos: eles também não têm um papel fácil. Crescem num mundo que não lhes permite parar nem respirar. Um mundo que lhes pede para estar em todo o lado, o tempo todo e sempre bem — nas redes, nas notas, na aparência, no humor. São bombardeados com notificações e comparações. Vivem numa espécie de "presença obrigatória", sempre conectados e, paradoxalmente, cada vez mais desligados de tudo e todos. Há ainda o peso da biologia: o cérebro adolescente está em remodelação. As áreas que controlam o impulso e o julgamento ainda estão em obras. Por isso, quando a emoção é intensa e o contexto é caótico, a razão perde espaço. E, se a casa for um lugar sem travões ou sem tempo, a impulsividade ganha terreno.

Educar nunca foi fácil. Mas educar num tempo sem pausas é quase heróico.

E a solução? Esta é a vossa pergunta – quase que vos consigo ouvir. O primeiro passo é libertar-nos da ilusão da perfeição. Donald Winnicott, pediatra e psicanalista, chamou-lhe "a mãe suficientemente boa" — aquela que não acerta sempre, mas que está lá de forma consistente e genuína. O mesmo vale para os pais. É na falha que se aprende empatia. É na frustração que se constrói resiliência.

O segundo passo é permitir que os filhos falhem. Deixá-los "bater com a cabeça", aprender com o erro, suportar a espera. Passamos de uma geração em que "aguenta" era o lema, para outra em que tudo se elogia, tudo se protege. Mas a verdadeira segurança não vem da ausência de quedas — vem da capacidade de se levantar depois de cair. E, talvez mais importante de tudo, é perceber que o nosso papel não é criar filhos felizes o tempo inteiro, mas filhos capazes de lidar com a infelicidade. Filhos que saibam que o mundo não os aplaude sempre, que compreendam que o amor também sabe dizer "não" e que os limites são uma forma muito importante de cuidar.

No fim, educar é isto: ajudar uma criança a crescer para que saiba estar num mundo em que não vai correr sempre tudo bem nem vai estar sempre tudo bem – e, apesar disso, sobreviver. E, se há algo que todos — pais e filhos — precisamos de reaprender, é que não se querem pais nem filhos perfeitos. 

Nécessaire

Novo sérum gera curiosidade: marca diz que reduz rugas em 5 dias

Há uma novidade antirrugas no mercado da Freshly Cosmetics. A promessa é ambiciosa e a marca explica como consegue resultados em tão pouco tempo.

Nécessaire