Recentemente, um estudo, realizado pelo Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC), em Espanha, concluiu que "o consumo de presunto ibérico durante 12 semanas tem benefícios para os desportistas", lê-se na EuroNews.
Mais especificamente, os cientistas afirmam que o alimento pode "contribuir para a recuperação muscular devido à presença de proteínas completas, ácido oleico, ferro heme, zinco, selénio e vitaminas do complexo B".
Graças a isto foi considerado por muitos um superalimento. É mesmo? Fomos tirar as dúvidas com Lillian Barros e, segundo a nutricionista, o termo superalimento "não é científico, mas sim comercial".
O presunto ibérico pode realmente ser considerado um superalimento?
Depende do contexto, o estudo mencionado destaca o presunto ibérico de bolota que tem uma elevada quantidade de proteínas de boa qualidade. É ainda rico em ácidos gordos monoinsaturados, sobretudo ácido oleico (o mesmo predominante no azeite); e contém micronutrientes como ferro, zinco e vitaminas do complexo B.
No entanto, o termo superalimento não é científico, é comercial. Chamar o presunto ibérico de superalimento para desportistas pode ser exagerado, sobretudo se ignorarmos o elevado teor de sal; a presença de gorduras saturadas; e o potencial efeito pró-inflamatório do consumo habitual de carnes processadas, mesmo que de alta qualidade.
É um alimento de qualidade superior dentro da categoria dos enchidos, mas não é isento de limitações.
O teor de sal e gordura saturada não anula os benefícios?
Em parte, sim. Uma porção de 50 gramas (g) de presunto ibérico pode conter 2 a 3g de sal, o que representa 40 a 50% do limite diário recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Para além disso, as gorduras saturadas não são tão elevadas quanto em outros enchidos, mas ainda estão presentes (cerca de 5–6g/100g).
Já para desportistas o sal pode ajudar na reposição eletrolítica, mas não deve ser consumido em excesso diariamente. Sim, a gordura contribui para a saciedade e pode ser benéfica em modalidades de endurance, mas existe risco cardiovascular se for frequente e acumulada com outras fontes saturadas.
Ou seja, os potenciais benefícios devem ser equilibrados com a carga de sódio e gordura saturada, especialmente se consumido com frequência.
Faz sentido comer este alimento antes ou depois do treino?
Não é ideal para antes do treino. É rico em gordura e sal, o que retarda a digestão e pode causar desconforto gastrointestinal.
Depois do treino, idealmente, como nutricionista indicaria outros alimentos como ovos, atum, iogurte grego, tofu ou frango grelhado fornecem proteína sem os contras (menos sal, gordura saturada, aditivos);
Na minha opinião, sendo que na alimentação há espaço para tudo dentro do equilíbrio e moderação, o presunto pode ser incluído ocasionalmente num pós-treino, mas não é superior a fontes mais limpas e completas de proteína como as mencionadas acima por exemplo.
Comer presunto todos os dias pode ser compatível com uma alimentação equilibrada e preventiva?
Não, a OMS classifica carnes processadas (incluindo presunto) como grupo um - cancerígenos para humanos, com base em evidência sobre risco aumentado de cancro colorretal.
Mesmo sendo presunto ibérico (sem nitratos), o teor de sal, gordura e processo de cura ainda o coloca nessa categoria.
O consumo diário não é recomendado numa dieta equilibrada e preventiva. Deve ser reservado para consumo moderado e ocasional.
Que alimentos podem ser melhores alternativas?
Se o objetivo for otimizar recuperação muscular e desempenho, existem opções mais seguras como as proteínas magra: ovos, claras, iogurte, queijo fresco, peito de frango, tofu, tempeh. Todas apresentam alta densidade proteica e ao mesmo tempo baixo teor de gordura/sal
Existem outras fontes com gordura boa: abacate, azeite virgem extra, frutos secos, sementes. Todas são gorduras mono e poli-insaturadas com efeito anti-inflamatório
Já como snacks salgados mais leves recomendo queijo ricota com azeite e orégãos, húmus com palitos de legumes porque apresentam fonte de sal e gordura controlada.
