Bebés Reborn
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Bebés Reborn? "Podem servir para aliviar a solidão, a ansiedade ou a dor"

É uma tema cada vez mais popular e que causa dúvidas a muitas pessoas. Fomos esclarecer algumas com Carolina de Freitas Nunes, uma psicóloga e diretora clínica da CogniLAB.

É, sem dúvida, um dos assuntos do momento e deixa muitas pessoas confusas. Estamos a falar, claro, sobre o fenómeno dos Bebés Reborn no Brasil. Caso não saibas, "são bonecos hiper-realistas que reproduzem com detalhe a aparência e o peso de um recém-nascido", explica Carolina de Freitas Nunes, uma psicóloga e diretora clínica da CogniLAB, em entrevista à VERSA. 

Todos "são feitos manualmente, peça a peça, e muitos têm veias, marcas de pele, até cheiro". Explica ainda que o próprio nome reborn "vem exatamente da ideia de renascimento". Começaram por ser uma arte para colecionadores, mas transformaram-se em algo mais, "num objeto com um enorme potencial emocional".

Isto porque todos os dias são publicados múltiplos vídeos nas redes sociais, especialmente no TikTok, nos quais pessoas, maioritariamente mulheres brasileiras, mostram as suas rotinas com os seus Bebés Reborn, como a hora da refeição, as idas ao médico, acabando por tratá-los como se fossem uma criança de carne e osso. 

 

É um tema que tem feito manchetes e, por exemplo, recentemente, uma mulher decidiu colocar a empresa onde trabalha em tribunal porque negaram a sua licença de maternidade pelo seu boneco hiper-realista, explica a CNN Brasil

O que faz com que estas pessoas criem esta ligação tão forte com os bonecos? Que tipo de consequências podem ter estes comportamentos? Fizemos estas e outras perguntas à psicóloga. 

Dr. Carolina de Freitas

O que pode motivar tantas pessoas, especialmente mulheres, a procurarem Bebés Reborn?

Há vários fatores. Em muitos casos, os Bebés Reborn surgem como resposta simbólica a perdas, uma gravidez que não se concretizou, um luto mal resolvido, ou até uma fase da vida em que se perdeu o papel de cuidadora. Para outras pessoas, representam simplesmente a possibilidade de cuidar sem risco, sem imprevisibilidade. Num mundo cada vez mais inseguro e acelerado, o reborn oferece uma forma de vínculo previsível e silencioso.

Pode ser uma resposta a alguma carência emocional ou necessidade afetiva específica?

Sim, em alguns casos. Não podemos generalizar, mas muitas vezes o que está presente é uma necessidade de contacto, de afeto, de sentir-se ligada a algo ou alguém. O reborn funciona como um objeto transicional, como acontece na infância com certos brinquedos ou mantas. É uma forma de regulação emocional pode servir para aliviar a solidão, a ansiedade ou a dor.

"É uma forma de preencher simbolicamente um vazio"

Muitas pessoas cuidam destes bonecos como se fossem bebés reais. Fazem enxoval, dão nomes, até criam rotinas. O que está por trás desse comportamento do ponto de vista psicológico?

O que está por trás é, muitas vezes, uma tentativa de reorganizar internamente algo que está ferido ou em falta. O ritual de cuidar acalma, estrutura, e dá sentido ao quotidiano. Vestir, embalar ou falar com o reborn pode parecer estranho do lado de fora, mas para quem o faz, é uma forma de preencher simbolicamente um vazio. O cérebro, aliás, responde a estas interações com ativação real das redes afetivas.

Em alguns casos, os reborn são usados em contextos terapêuticos. Pode explicar como e porquê? Há mesmo benefícios comprovados?

Sim, em contextos clínicos, os reborn podem ser úteis na redução da agitação em pessoas com demência, no apoio ao luto perinatal, ou no treino de competências parentais em jovens mães. Há estudos que mostram melhorias no humor, na redução da ansiedade e no aumento da interação social em ambientes geriátricos, por exemplo. É fundamental que o uso seja acompanhado por profissionais e enquadrado num objetivo terapêutico claro.

Já recomendou um Bebé Reborn a um/a paciente?

Já sugeri objetos de conforto sensorial em situações de ansiedade e trauma, como mantas pesadas ou bonecos com peso. No caso específico dos reborn, a sua utilização foi discutida com uma paciente em luto, mas com grande cuidado. Não se trata de substituir ninguém, mas de criar um espaço simbólico de expressão emocional. Nunca se impõe, sugere-se, explora-se, e percebe-se o que faz sentido para aquela pessoa.

Há quem veja o apego por estes bonecos como estranho. O que diria a quem julga essas pessoas?

Que olhe com mais curiosidade e menos julgamento. Muitas vezes, o que é visto como “estranho” é apenas uma forma diferente de lidar com a dor. O que pode parecer bizarro aos olhos de uns, pode ser uma tábua de salvação para outros. Quando compreendemos o que está por trás, a perda, o medo, a carência, passamos a olhar com mais empatia.

"É apresentado como companhia perfeita, sem conflito, o que pode criar uma relação pouco saudável com a realidade"

Porque acha que o Brasil, em particular, abraçou tanto o universo reborn? É possível que chegue cá?

O Brasil tem uma enorme expressividade afetiva, uma relação intensa com a maternidade e uma presença digital muito forte. Não é por acaso que muitos dos maiores canais sobre reborn estão em português do Brasil. Em Portugal, começa a haver mais curiosidade e procura, principalmente online. Acredito que o fenómeno vai crescer, sobretudo se o lado terapêutico for mais divulgado.

Há criadoras de conteúdo com milhões de seguidores que mostram a vida com os seus bebés reborn. Isto influencia ainda mais a procura? Que impacto têm as redes sociais neste fenómeno?

As redes normalizam, aproximam e também ampliam. Para muitas pessoas, ver alguém a cuidar de um reborn é reconfortante isto porque sentem que não estão sozinhas. Mas também pode gerar idealização ou dependência. O reborn é apresentado como companhia perfeita, sem conflito, o que pode criar uma relação pouco saudável com a realidade.

Há um ponto em que o uso dos Bebés Reborn pode deixar de ser saudável? Como se distingue entre o conforto e a dependência?

Sim. Quando a pessoa passa a evitar todos os laços reais, quando organiza a vida em torno do reborn, ou quando há sofrimento sempre que ele não está presente, é sinal de que o objeto deixou de ser apoio e passou a ser escudo. O conforto emocional é legítimo, a dependência começa quando o reborn ocupa o lugar das relações humanas e da autonomia.

Como vê o futuro deste fenómeno? Vamos ver mais aplicações terapêuticas, ou talvez uma evolução ainda mais imersiva com tecnologia?

Ambos. Já vemos reborn com sensores de movimento, som, respiração e aquecimento. É provável que haja versões com inteligência artificial ou realidade aumentada. Em paralelo, o seu uso terapêutico vai crescer, principalmente em demência, trauma e saúde mental perinatal. O grande desafio será manter o equilíbrio: usar o reborn como ferramenta, e não como refúgio absoluto.

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