Ficar muitas vezes doente no verão é normal?
Ficar muitas vezes doente no verão é normal? | Fotografia: Getty, Bettmann
Nécessaire

Ficar doente antes das férias? Será coincidência, azar ou biologia? Médica responde

Há quem fique doente sempre que está de férias e pode não ser coincidência ou azar, mas sim biologia. Maria Moreno, médica psiquiatra, assina este artigo educativo para explicar tudo.

Há uma frase que ouço em consulta com uma frequência surpreendente: "Sempre que chegam as férias, fico doente.". É “certinho e direitinho”, garantem-me. A maioria das pessoas assume que é coincidência ou azar ou falta de sorte. Mas a biologia sugere outra explicação.

Quando vivemos sob stress prolongado, o cérebro ativa o nosso sistema de sobrevivência desenhado para nos proteger perante ameaças. A amígdala cerebral — o nosso "alarme biológico" — deteta perigo e ativa o sistema nervoso simpático. A adrenalina sobe. O cortisol é libertado. O organismo entra em modo de alerta.

Dr.ª Maria Moreno | Fotografia: D.R.

A curto prazo, isto é extraordinariamente útil – não me deixem mentir. O problema surge quando o estado de alerta dura semanas e meses – sem pausas.

O nosso organismo reorganiza-se e redistribui recursos energéticos. Funções essenciais à sobrevivência imediata são privilegiadas. Outras passam para segundo plano: digestão, fertilidade, reparação celular, recuperação fisiológica e regulação fina do sistema imunitário.

É uma estratégia inteligente. Ora reparem: se estivermos a fugir de um leão, não precisamos de otimizar a nossa capacidade de nos reproduzirmos ou reparar as feridas. Precisamos de sobreviver. O resto pode esperar.

Mas hoje o "leão" raramente é físico. Pode ser um ambiente profissional impossível, uma relação desgastante ou anos de sobrecarga entre três filhos com pouca ou nenhuma ajuda e a tentativa inglória de ser promovido todos os anos para dar resposta às despesas que se acumulam.

Com o tempo, o sistema imunitário adapta-se a este estado de guerra permanente. Surgem alterações na comunicação entre cérebro e imunidade, maior produção de mediadores inflamatórios e perda de capacidade de regulação.

E depois chegam as férias. O cérebro percebe finalmente que já não precisa de correr. E aquilo que foi sendo adiado aparece. Uma infeção. Uma crise inflamatória. Uma exaustão esmagadora.

Não porque descansar adoeça. Mas porque o organismo deixou finalmente de gastar toda a sua energia a sobreviver.

O corpo não está a falhar. Durante semanas e meses produzimos mais, resolvemos mais problemas e fomos mais eficientes que nunca. Mas há uma conta para pagar. O corpo está apenas a cobrar a fatura em dívida.

Gourmet

Fernando Mendes e Quim Barreiros partilham o amor pela taberna onde "nem em sonhos se comia melhor"

Quando duas figuras tão acarinhadas pelos portugueses escolhem o mesmo restaurante, a curiosidade é inevitável. Fomos descobrir o que torna esta taberna tão especial.

Nécessaire