Há Casas que fazem Alta-Costura. A Schiaparelli torna a escrita impossível
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Francisca Salema
- 7 jul, 10:59
Poucas Casas compreendem, com esta clareza, que a Alta-Costura nunca foi um exercício de novidade. Foi sempre um exercício de linguagem. Será sempre difícil escrever sobre Schiaparelli, assim esperemos.
A abertura da Semana de Alta-Costura nunca poderia ter encontrado protagonista mais inevitável do que a Schiaparelli. Não pela expectativa — essa já se tornou um hábito — nem pelo cenário, por mais imponente que fosse. Porque a verdade é simples: a Schiaparelli não precisa de um museu, de uma galeria ou de um palácio para ser arte. Basta-lhe existir.
Muito se escreverá, inevitavelmente, sobre inovação. Sobre os materiais, sobre o uso do silicone, sobre as referências surrealistas, sobre o espetáculo. E tudo isso será verdade. Mas ficará aquém do essencial.
Esta coleção não impressiona porque desafia os limites técnicos. Impressiona porque nos recorda que a técnica, por si só, nunca bastou. O verdadeiro luxo continua a ser uma ideia. Uma visão. A capacidade de transformar matéria em emoção sem depender da explicação.
Uma narrativa que vive de uma capacidade, cada vez mais rara, de nos fazer acreditar que a beleza ainda pode surpreender.
Não é por acaso que Daniel Roseberry apresenta The Call of the Void como um exercício de rendição ao desconhecido. Depois de reconhecer que procurou repetir uma fórmula vencedora, admite que esse impulso acabou por sufocar a própria criação. Como escreve, "as fórmulas são incompatíveis com a magia de criar".
É precisamente essa recusa da fórmula que se sente em cada silhueta desta coleção. Nada parece desenhado para corresponder a uma expectativa. Tudo parece existir porque houve a coragem de confiar naquilo que ainda não tinha nome.
Afinal, Schiaparelli não desenha vestidos. Esculpe presença.
Cada silhueta parecia desafiar a anatomia sem nunca perder a elegância; cada volume existia para celebrar o corpo e não para o esconder; cada detalhe carrega uma memória da Alta-Costura, mas recusava viver preso ao passado. Há um respeito absoluto pela história da Maison, mas também uma coragem insubordinada de a reescrever em cada estação.
É precisamente aí que reside o seu ADN.
Não na extravagância. Não na provocação gratuita. Mas na convicção de que a moda pode continuar a ser um exercício artístico com personalidade definida, crescida, de quem sabe o que quer e para onde vai.
Roseberry escreveu ainda que "nomear coisas, defini-las, é confortável", mas que, ao fazê-lo, retiramos às ideias parte da sua força e do seu mistério. Talvez seja essa a maior lição desta coleção. Há uma beleza que não quer ser imediatamente compreendida. Há uma emoção que resiste à explicação. E a Schiaparelli continua a proteger esse espaço raro onde a imaginação vale mais do que a definição.
Nada procura ser viral, imediato e facilmente consumível. Schiaparelli faz o oposto do que nos habitua o mundo em pleno 2026. Obriga-nos a olhar uma segunda vez. E depois uma terceira. A reparar nos detalhes, a descobrir proporções, texturas e uma construção que dificilmente se compreende apenas através de um ecrã.
Há peças que impressionam. E há peças que permanecem.
Esta coleção já nasceu eterna.
Porque, no fim, aquilo que verdadeiramente nos tira o fôlego não é o artifício. É a precisão. É a disciplina escondida por detrás da fantasia. É perceber que cada centímetro daquela silhueta foi pensado para criar emoção antes de criar moda.
A Schiaparelli continua a lembrar-nos que a Alta-Costura nunca foi sobre roupa.
Foi, e continua a ser, sobre provocar. Sobre emocionar, sobre sentir, sobre uma relação amorosa com a arte, sempre complexa e necessária à existência.
Daniel Roseberry recordou ainda que Elsa Schiaparelli nunca usou o Surrealismo para escapar à realidade, mas para revelar aquilo que nela permanecia invisível e inexplicável. Talvez seja essa a razão pela qual escrever sobre a Schiaparelli continua a ser um exercício inevitavelmente incompleto. Há qualquer coisa que escapa sempre ao texto.
Mais do que uma análise técnica ao savoir-faire desta Casa, esta conVERSA é sobre ficarmos sem palavras.
No final, o melhor da poesia não se escreve.
Antes de Roberto se tornar uma lenda, trabalhava numa fábrica de roupa com 11 anos
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Rafaela Simões
- 7 jul, 08:21
