A forma como se vive a sexualidade hoje em dia em pouco se compara com o antigamente. Se antes o sexo era um tema tabu, hoje em dia há uma maior abertura para discutir em casa ou entre amigos este tema. No entanto, há um fenómeno que está a ganhar cada vez mais expressão.
As camadas mais jovens estão a aderir em massa à abstinência sexual. O que isto significa? Por convicção ou, por vezes, por medos ou inseguranças, preferem abolir a sexualidade das suas vidas.
Será que esta atitude pode trazer benefícios? Ou, pelo contrário, até poderá ser um risco para a saúde e bem-estar? As respostas são dadas por Tatiana Louro da Bela, psicóloga clínica 5 Sentidos.
Tem-se falado de um aumento da abstinência sexual entre os jovens. Na sua opinião, o que está a levar cada vez mais jovens a optar por essa prática?
Efetivamente tem-se verificado um declínio da atividade sexual e um aumento da abstinência sexual entre os jovens. Dados internacionais mostram que, entre 2002 e 2022, a abstinência sexual nos jovens entre os 18 e os 24 anos de idade praticamente duplicou. Sabemos hoje que a “geração Z” tem menos atividade sexual do que as gerações anteriores, o que parece resultar da combinação de uma série de fatores. Entre os principais motivos encontram-se a dedicação e o investimento na carreira, o tempo despendido em jogos online, o consumo de pornografia e dificuldades ao nível da saúde mental. Com efeito a ansiedade, a baixa autoestima, o culto muitas vezes do corpo perfeito, a mudança nos valores e inegavelmente o impacto da pandemia influenciam o comportamento sexual atual dos jovens.
A pressão social, as redes sociais e a exposição constante a conteúdos sexualizados podem estar a influenciar esta escolha?
Sem dúvida que sim.
A cultura do corpo perfeito e a exposição frequente a conteúdos sexualizados nas redes sociais aumenta a comparação com o outro originando muitas vezes uma perceção de imagem corporal distorcida, uma vergonha corporal acentuada, levando muitos jovens a evitarem a intimidade por não se sentirem “bons o suficiente” fisicamente. Não se sentem “à altura”. A comparação social encontra-se intimamente ligada à criação de expectativas irrealistas de desempenho e de aparência, aumentando a ansiedade de desempenho sexual e o medo de desiludir o outro. Da mesma forma o contato frequente com as redes sociais têm levado à vivência da sexualidade de outra forma, nas quais têm surgido formas de contacto e vivência do prazer diferentes, como o caso do sexting.
Terá a pandemia e a redução do contacto físico levado a mais situações de abstinência sexual?
Naturalmente. A pandemia trouxe consigo o isolamento social e este, ao reduzir o contacto presencial, aumentou o uso das tecnologias reforçando interações muitas vezes mediadas pelos ecrãs. O que, a acrescer uma dificuldade ao nível da inteligência emocional e de um desenvolvimento psicoemocional mais tardio trouxe uma dificuldade acrescida em lidar com as emoções e ao logo do tempo um aumento do défice ao nível das habilidades sociais e um impacto marcado nos relacionamentos.
É mais comum a abstinência sexual escolhida por convicção pessoal ou aquela que resulta de ansiedade, insegurança ou experiências negativas passadas?
Há jovens que escolhem conscientemente não se envolver sexualmente e vivem de forma relativamente tranquila e alinhada com os seus valores com essa decisão. No entanto, outros jovens relatam evitar o contacto sexual por medo da contaminação, ansiedade social, insegurança com o corpo, medo da rejeição, medo de falhar, experiências prévias, dor, trauma, entre outros – neste caso podemos dizer que a abstinência não é uma “escolha livre” antes mais uma estratégia de evitamento ou de proteção, causando sofrimento emocional.
Esta tendência pode estar relacionada com mudanças na forma como os jovens encaram os relacionamentos, o compromisso e a intimidade emocional?
As relações mudaram. Os jovens valorizam cada vez mais a sua autonomia, liberdade, focam-se na sua carreira e no seu bem-estar e parece haver uma maior desconfiança dos relacionamentos tradicionais e do compromisso a longo prazo. De igual forma muitos jovens adultos descrevem dificuldade em gerir a intimidade emocional mencionando que é mais “seguro” estar online ou em relações “fluidas” do que arriscar “magoar-se ao vivo” – demonstrando uma vulnerabilidade emocional e sexual no contato presencial.
Do ponto de vista da saúde sexual e mental, a abstinência sexual pode trazer benefícios ou riscos quando prolongada no tempo?
Acredito que quando prolongado no tempo traga mais riscos do que benefícios na medida em que somos seres sexuais por natureza. Os benefícios de uma abstinência prolongada, do ponto de vista da saúde sexual, podem ser a redução do risco de infeções sexualmente transmissíveis e de uma gravidez não planeada, no entanto, quando prolongada no tempo, muitas vezes, a abstinência sexual deve-se à presença de crenças disfuncionais “não sou capaz, não sou desejável”, “vou falhar”, “vai correr mal”, escondendo o medo e a vergonha. Está muito ligado à ansiedade e leva a um sentimento de exclusão, baixa autoestima, podendo originar dificuldades futuras na vivência da sexualidade e da intimidade.
A abstinência sexual entre os jovens é uma tendência passageira ou pode representar uma mudança mais profunda e duradoura na forma como as novas gerações vivem a sexualidade?
Parece ser uma transformação mais profunda na relação com o corpo, com o prazer, com o compromisso e com a própria saúde mental, embora os padrões comportamentais se possam alterar com o tempo.
Que conselhos daria a pais e educadores que se sentem preocupados ou confusos perante este cenário?
Ainda há um trabalho a fazer-se ao nível da consciencialização, da partilha de informação sobre sexualidade em contexto familiar e da proximidade de relação dos pais com os filhos, sobretudo quando respeita estas temáticas. Parece-me que mutos pais ainda não têm presente esta alteração. No entanto, para aqueles que estão preocupados, claro, a comunicação é fundamental. Não dramatizar nem moralizar é fundamental. Acolher e procurar compreender: ouvir primeiro, perguntar como o jovem se sente em relação à própria sexualidade, corpo e relacionamentos, e validar dúvidas e receios. É fundamental investir-se em educação sexual: explicar o papel das emoções, dos afetos, do consentimento, do prazer, da proteção, da autoestima corporal, ajudando os jovens a lidarem com as suas inseguranças e incertezas. Também é importante aprender a diferenciar abstinência como escolha livre de abstinência baseada no medo ou na vergonha, e encaminhar para acompanhamento psicológico quando há sinais de sofrimento emocional.
