Este sinal de trânsito sobreviveu 300 anos e passa discreto nas ruas de Lisboa
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Rafaela Simões
- 9 jul, 11:49
A vida em Lisboa de há 300 anos pode ser difícil de imaginar, mas há vestígios dessa época que sobrevivem até hoje. É o caso deste sinal de trânsito, o mais antigo da cidade.
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Há regras na estrada que todos conhecemos de cor e outras que, com o passar dos anos, acabam esquecidas ou passam despercebidas. Mas muito antes de existirem os sinais modernos ou um Código da Estrada, já havia normas para organizar a circulação nas ruas de Lisboa. E a prova continua à vista de quem passa por Alfama.
Na Rua do Salvador, no número 26, encaixada na parede do lado direito de quem sobe a rua, encontra-se uma relíquia com mais de três séculos de história. Sobreviveu ao terramoto de 1755, à reconstrução da cidade e às profundas transformações urbanas que marcaram Lisboa ao longo dos séculos. Ainda hoje permanece no mesmo lugar, embora a maioria das pessoas passe por ela sem sequer reparar.
A inscrição é simples e não deixa margem para dúvidas: "Ano de 1686. Sua Majestade ordena que os coches, seges e liteiras que vierem da Portaria do Salvador recuem para a mesma parte." Traduzida para os dias de hoje, a mensagem seria igualmente clara: quem desce a rua deve recuar para dar passagem a quem sobe.
À primeira vista, pode parecer estranho imaginar um sinal de trânsito no século XVII. No entanto, a Lisboa dessa época era uma cidade movimentada.
O problema era que, tal como hoje, muitas das ruas de Alfama eram estreitas, sinuosas e sem espaço para que dois veículos passassem em simultâneo, pelo que quando dois coches se encontravam frente a frente numa dessas artérias, nenhum dos passageiros queria ceder passagem. O resultado era um impasse que rapidamente podia transformar-se numa acesa discussão.
E, no século XVII, as discussões nem sempre terminavam apenas com palavras. Os cocheiros circulavam frequentemente armados e os conflitos podiam escalar para confrontos físicos e até duelos, numa época em que a honra era defendida de forma bem diferente da actual.
Perante os constantes conflitos, D. Pedro II decidiu intervir e em 1668 mandou instalar 24 placas de pedra em vários pontos estratégicos da cidade, estabelecendo regras de circulação que podem ser vistas como um dos primeiros códigos da estrada de Lisboa.
A placa da Rua do Salvador, gravada em 1686, é a única sobrevivente desse conjunto.
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