Há quem garanta lugar nesta festa no Douro com um ano de antecedência. Sabes qual é?
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Redação
- 31 jul, 13:55
Há festas cuja data se procura quando o convite chega. E há uma noite no Douro que leva pessoas a telefonar um mês antes (por vezes, um ano antes) apenas para fazer uma pergunta: quando é a próxima?
Não é um casamento nem um festival com cartaz anunciado em letras gigantes. É um jantar. Pelo menos, é assim que começa. Depois entram o jardim, os chefs, as Quintas, dezenas de vinhos, a música e centenas de conversas em línguas diferentes. Quando se dá por ela, a horta do Six Senses Douro Valley transformou-se numa das noites mais bonitas do verão duriense.
A Garden Party regressou a 25 de julho de 2026. Começou às 19h30, ainda com luz suficiente para ver o Douro em frente e os socalcos a desenhar o vale, e só terminou à meia-noite, quando o fogo de artifício tomou o céu. Quatro horas e meia que dançaram a voar e se querem repetir logo mal acaba.
A data que se pergunta antes de ser anunciada
Há uma razão para esta ansiedade boa. A Garden Party não é uma extensão do restaurante nem um simples sunset de hotel. É o raro momento do ano em que o Six Senses abre os seus jardins a hóspedes, habitantes da região e visitantes que viajam propositadamente até Vale Abraão para viver a festa.
Em 2026, a entrada custou 175 euros por pessoa, com comida e bebidas incluídas. Mas o que se compra não cabe numa lista de consumos.
Compra-se liberdade. A de chegar sem mesa marcada, sem menu de sete momentos a ditar o relógio e sem a obrigação de escolher um único vinho para acompanhar o jantar. Aqui, cada pessoa compõe a própria noite: prova, repete, passa ao prato seguinte, volta atrás, pergunta, aprende, dança e recomeça.
A tradição também já tem história. Em 2025, quando o Six Senses Douro Valley celebrou dez anos, a procura justificou duas Garden Parties, uma em julho e outra em agosto. Houve chefs convidados de unidades Six Senses de Londres, Índia e Japão, produtores do Douro, música ao vivo e DJ. Este ano, a festa voltou à sua forma concentrada: uma única noite para guardar na memória.
O mundo encontra-se numa horta
A primeira surpresa não está no prato. Está nas pessoas. Mais de duas dezenas de nacionalidades passeiam pelo mesmo jardim numa noite quente, mas agradável, dessas em que o verão do Douro parece finalmente ter encontrado a temperatura certa. Ouvem-se vozes dos Estados Unidos, do Brasil, de França, de Espanha, de Israel e de muitos outros lugares.
Num instante fala-se de vinho; no seguinte, de uma cidade longínqua, de uma viagem acabada de começar ou de como alguém descobriu esta festa.
É esse acaso que lhe dá elegância. Não a elegância rígida de uma sala em silêncio, mas a de poder caminhar com um copo na mão entre pessoas de todo o mundo, parar junto a uma oliveira anã e entrar numa conversa interessante sem saber onde ela vai terminar. O luxo, aqui, talvez seja isso: tempo, espaço e curiosidade.
O cenário faz o resto.
A horta orgânica, a estufa, os canteiros alinhados, as ervas aromáticas e as oliveiras em miniatura tornam-se sala de jantar sem deixarem de ser jardim. Mais abaixo, o rio acompanha a festa como uma presença serena. E as luzes suspensas acendem-se devagar como estrelas suficientemente baixas para iluminar os pratos.
O Douro serve-se a copo. E a conversa também
Depois vêm os vinhos. Muitas Quintas, dezenas de referências e uma decisão que se repete ao longo da noite: provar algo novo ou regressar ao copo que ficou na memória? Não há resposta errada.
Pode-se beber em silêncio, prestar atenção à fruta, à acidez e à madeira. Pode-se pedir ao sommelier que explique a parcela, a casta ou o ano. Ou pode-se simplesmente conversar. É frequente a prova começar com uma pergunta técnica e acabar numa história de família, numa vindima antiga ou numa recomendação para o dia seguinte. No Douro, o vinho nunca vem sozinho. Traz sempre alguém consigo.
As mesas de queijos e enchidos fazem a abertura mais portuguesa possível. Um pedaço, depois outro, enquanto se decide para onde seguir. E é então que o jardim revela a sua geografia gastronómica: uma estação ao fundo, outra junto à estufa, fumo a sair do fogo, pratos a chegar em doses pequenas para permitir muitas escolhas.
Um menu sem princípio, meio ou fim — ainda bem
Tentar provar tudo seria perder a festa. O segredo é debicar. Escolher. Repetir apenas o que pede repetição. Conversar com quem está a cozinhar e deixar que o aroma seguinte decida o caminho.
Entre as propostas de 2026, o chef Rui Paula apresentou um gaspacho com lírio, fresco e preciso para abrir uma noite de julho. Noutro ponto do jardim, O Forno de Jales trabalhava o boi capado dos pés à cabeça, acompanhado por chimichurri da horta, molho barbecue com chipotle, salada de funcho e nectarina, pimentos confitados e tomate coração-de-boi com requeijão. O fogo fazia parte do prato e do espetáculo.
A equipa do Six Senses Douro Valley levou à mesa uma salada de labneh de coco com pickles grelhados, tartine de escabeche de mexilhão e pimentos e pão de azeite recheado, assado no ofyr, ora com barriga de porco e carabineiro, ora numa versão de couve preservada e cogumelos grelhados.
Vegetarianos, peixe, carne, saladas: a abundância não se mede pelo excesso, mas pela possibilidade de cada pessoa construir um jantar diferente.
E ainda faltavam os doces.
Do Six Senses Zighy Bay, em Omã, o pastry chef Arthur Lambert trouxe o azeite (o ouro do Douro) para a sobremesa e juntou-lhe pêssegos de verão. Uma viagem longa para um final que sabia exatamente ao lugar onde estávamos. Não é preciso enumerar mais.
A beleza da Garden Party está justamente em nunca caber por inteiro num relato. Há sempre um prato que escapou, um vinho que alguém aconselhou tarde demais ou uma conversa que nos afastou da estação seguinte. Ainda bem. As melhores festas deixam qualquer coisa por provar.
Primeiro, a guitarra. Depois, ninguém fica sentado
A música começa com a delicadeza da guitarra portuguesa ao vivo. Faz sentido. Ao fim da tarde, com o Douro diante dos olhos, o instrumento não precisa levantar a voz para prender o jardim. As conversas continuam, os copos tocam-se, os pratos circulam.
Mas a noite vai crescendo. Chegam os êxitos dos anos 80, 90 e 2000, aqueles refrões que atravessam idades e nacionalidades sem precisar de tradução. Quem há pouco discutia castas com um sommelier começa a marcar o ritmo com o pé. Depois dança. Perto da meia-noite, Vale Abraão já entrou decididamente em ambiente Disco.
É uma progressão bem medida: do Douro contemplativo ao Douro dançante, sem corte brusco. A festa muda de pele ao mesmo tempo que o céu perde a última luz. E, quando todos percebem que o fim está próximo, ainda falta o momento que ninguém quer perder.
À meia-noite, o céu responde
Às 0h00, o fogo de artifício irrompe sobre o vale. Por breves minutos, conversas de várias línguas calam-se na mesma língua: a do espanto. Os telemóveis sobem, os rostos também. O Douro, que passou a noite inteira em frente, devolve as luzes na água.
É difícil não pensar em cinema. Estamos na geografia de Vale Abraão, nome imortalizado no romance de Agustina Bessa-Luís e no filme de Manoel de Oliveira. Mas, nesta noite, não há espectadores: cada convidado entra na cena. O jardim iluminado, as figuras entre as oliveiras, o fumo do fogo, a música e o céu final poderiam ser uma sequência preparada ao detalhe. E, no entanto, conserva a espontaneidade de uma festa entre amigos.
Talvez seja esse o maior feito da Garden Party. Um hotel reconhecido internacionalmente consegue criar uma noite sofisticada sem a tornar distante; reunir produtores, chefs, sommeliers, hóspedes e visitantes sem os prender a lugares marcados; fazer do luxo não uma barreira, mas um cenário para o encontro.
Guardar a data antes de ela existir
Quem não sabia que esta festa acontece todos os anos no Six Senses Douro Valley, já sabe. Quem sabia, provavelmente não precisava deste aviso. É possível que já tenha perguntado pela próxima data.
Ainda não há calendário anunciado para 2027. E é precisamente por isso que vale a pena guardar a ideia, seguir as novidades do hotel e não deixar a decisão para a última semana. Há quem reserve apenas o jantar. Há quem transforme a noite numa escapadinha e combine estadia e Garden Party, prolongando até ao pequeno-almoço a sensação de ter dormido dentro do vale.
Uma vez por ano, a horta torna-se mundo, o Douro serve-se em dezenas de copos e Vale Abraão dança até à meia-noite. Convém não esquecer.
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Rafaela Simões
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