Este é um dos segredos guardados no Six Senses Douro Valley
Este é um dos segredos guardados no Six Senses Douro Valley
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Há uma floresta de Sintra escondida no Douro nascida de uma extraordinária história de amor

Conta-se que na antiga Quinta de Vale de Abraão, uma das antigas senhoras da casa sentia falta de Sintra, dos seus jardins românticos e daquele mundo meio real, meio encantado, que se encontra na Quinta da Regaleira. Para sentir-se em casa, o marido mandou plantar árvores junto ao Douro.

Não sabemos se Lord Byron aprovaria o gesto. Mas depois de ter chamado a Sintra um “glorioso Éden”, dificilmente ficaria indiferente a esta pequena floresta romântica de Cedros e Teixos nascida ao lado de vinhas de Touriga Nacional e Touriga Franca. Bem vindos a um dos mais belos segredos do Six Senses Douro Valley. O mistério da floresta de Sintra.

À volta do hotel, o vale do Douro apresenta-se como esperamos: encostas desenhadas por vinhas, muros de xisto, oliveiras, barcos que avançam. Há quem ofereça flores à pessoa que ama. Alfredo Passanha ofereceu uma floresta inteira.

No final do século XIX, Alfredo e a mulher, Laura Pereira Leitão, decidiram fazer da Quinta de Vale de Abraão a sua residência permanente. Uma escolha quase excêntrica: naquele tempo, os proprietários das Quintas durienses vinham, sobretudo, acompanhar as vindimas ou passar pequenas temporadas. O Douro era lugar de trabalho e veraneio, não uma casa para todo o ano. Mas Alfredo e Laura ficaram. E mudaram tudo.

Uma promessa chamada Sintra

Laura Pereira Leitão, descendente de João Lourenço de Seara (proprietário destas terras já no século XV e servidor do rei D. Afonso V) sentiria saudades de Sintra, das suas matas húmidas, dos jardins românticos e da arquitetura quase fantástica dos seus palácios.

Conta a memória local que Alfredo lhe fez, então, uma promessa: traria à Quinta todas as espécies de árvores que conseguisse encontrar e criaria, em pleno Douro, um paraíso botânico onde Laura pudesse voltar a sentir-se em casa. É difícil imaginar uma declaração de amor com raízes mais profundas.

A casa senhorial foi reconstruída segundo o romantismo arquitetónico de Sintra. Ganhou uma torre, a capela passou para o interior e, em redor, nasceram jardins, lagos, fontes, escadarias, caminhos sinuosos e pequenos miradouros escondidos na vegetação. Alfredo não se limitou a oferecer árvores à mulher. Tentou mudar o clima à volta dela.

O mistério da floresta de Sintra

A propriedade tinha uma vantagem quase milagrosa para o Douro: água em abundância. Linhas naturais atravessavam os terrenos e permitiram criar um engenhoso sistema de rega, uma cascata, lagos artificiais e fontes.

Foi essa água que tornou possível a sobrevivência de espécies pouco habituais numa região de verões tão quentes. Entre a vegetação encontram-se palmeiras de grande porte, cedros, sequoias, plátanos, camélias, árvores-da-borracha, azevinhos, teixos e diversas árvores de fruto. À entrada, no chamado Pátio do Gigante, uma magnólia centenária ergue-se junto à fonte como o grande símbolo vivo dessa época. Não conheceu Laura e Alfredo apenas por retratos: cresceu com eles.

A floresta ocupa hoje cerca de cinco hectares. Os trabalhos de inventariação identificaram 538 espécies, 448 das quais nativas e 125 árvores antigas, algumas com mais de dois metros de perímetro. São gigantes que armazenam carbono, retêm água e dão abrigo a fungos, insetos, aves e pequenos mamíferos.

Mas os números contam apenas uma parte da história. A outra ouve-se. O vento nas copas. A água que corre escondida. Os passos sobre as folhas. E, quando a vegetação abre, o Douro em frente. Estamos a cerca de 350 quilómetros de Sintra. Por momentos, ninguém diria.

As dez pequenas loucuras de Alfredo

Eça de Queirós e Ramalho Ortigão escreveram “O Mistério da Estrada de Sintra”. Na Quinta de Vale de Abraão, o mistério encontra-se nos caminhos.

Ao longo da mata sobrevivem dez ‘follies’, pequenas construções ornamentais características dos jardins românticos europeus do século XIX. A palavra pode traduzir-se por “loucuras” ou “caprichos” arquitetónicos. Não eram casas nem tinham grande utilidade prática. Existiam para surpreender. Surgiam depois de uma curva, junto a uma linha de água ou entre árvores densas. Eram lugares onde a família podia descansar, ler, conversar ou tomar chá, enquanto as crianças (entre elas, mais tarde, os sobrinhos Serpa Pimentel) as transformavam em casas de brincar.

O Six Senses prolongou essa arte de saber parar. Ao longo dos caminhos colocou pérgulas, bancos e recantos estofados onde é possível sentar-se ou mesmo deitar-se, protegido das folhas e do vento. Das dez encontrámos 4 que fomos experimentar. Em frente está o rio. Em redor, apenas o rumor das árvores. Lord Byron chamou a Sintra um “glorioso Éden”. Talvez reconhecesse este.

A Quinta que acendeu primeiro a luz

O romantismo de Alfredo e Laura não estava preso ao passado. O casal queria beleza, mas também conforto e modernidade. Construiu uma pequena barragem e instalou um gerador. Vale de Abraão tornou-se a primeira casa eletrificada da região, numa altura em que ter luz elétrica no Douro era quase tão extraordinário como possuir uma floresta exótica.

A residência tinha campainhas em quase todas as divisões e até aquecimento central, um luxo praticamente inaudito no final do século XIX. O gerador original acabaria exposto no Museu da Eletricidade, em Lisboa. A Quinta tornou-se uma das propriedades mais elegantes e desejadas do vale. Um palácio, mais do que uma casa, com o céu por teto e o Douro a correr-lhe aos pés, assim a descreveu um escritor português.

Laura e Alfredo não tiveram filhos. A propriedade passou para os sobrinhos Serpa Pimentel, cuja memória permanece num dos recantos do restaurante Vale de Abraão, através de fotografias antigas reunidas nas paredes.

Do fogo ao Six Senses

Um incêndio, em 1997, destruiu grande parte da casa e feriu os jardins e a mata. Seguiu-se aproximadamente uma década de abandono, até a Quinta ser recuperada e transformada no hotel Aquapura Douro Valley, inaugurado em 2007.

Em 2015, depois de uma nova e profunda renovação, nasceu o Six Senses Douro Valley, o primeiro hotel europeu da marca. O projeto de interiores, assinado pela nova-iorquina Clodagh, recuperou o glamour da casa sem competir com a paisagem. Muros foram disfarçados por jardins verticais e vinhas. Áreas técnicas e grande parte do Spa desapareceram debaixo da terra. Até o tom rosado e castanho da fachada foi pensado para conversar com o xisto e com as cores naturais do vale. O resultado não parece ter sido pousado na paisagem. Parece ter crescido dentro dela.

O luxo de desaparecer

Hoje encontram-se aqui famílias, casais e clientes em viagens de negócios, recebidos de aperto de mão firme pelo Hotel Manager, Joel Saldanha, e toda a equipa que pelos vários espaços recebem proativa e empaticamente. Cada um vive a Quinta à sua maneira, mas todos parecem obedecer ao mesmo pacto silencioso: o sossego respeita-se.

Há piscinas interiores que se desdobram em diferentes zonas, saunas e salas de tratamento. Lá fora, uma piscina infinita prolonga visualmente a água até ao vale. Há padel, bicicletas elétricas, passeios pelas vinhas, uma horta orgânica e um barco privado para descobrir o Douro a partir do rio. Também se pode não fazer nada.

Escolher um dos recantos da floresta, abrir um livro e deixar passar a tarde talvez seja a experiência mais exclusiva de todas. O verdadeiro luxo não estará apenas nas camas feitas à mão, nas casas de banho de calcário português ou nos quartos com pontes de madeira que conduzem a jardins secretos. Estará na possibilidade de desaparecer sem sair do lugar.

A primeira semente de uma ideia mundial

Foi também no Douro que nasceu o primeiro Earth Lab da Six Senses. Começou como um espaço para aproximar hóspedes e equipa das práticas ambientais da Quinta e acabaria por se tornar um elemento central nos hotéis da marca em todo o mundo. Aqui aprende-se fazendo: compostar, reaproveitar, conservar alimentos, reduzir desperdícios e compreender de onde vem aquilo que chega ao prato.

Mas a sustentabilidade não termina nos limites da propriedade. O hotel apoia a conservação do burro de Miranda, protege parte da margem do Douro e a floresta histórica, colabora com associações de animais abandonados e financia projetos dirigidos a crianças, famílias vulneráveis e idosos da região.

Natureza, comunidade e economia circular encontram-se assim no mesmo lugar. Porque cuidar de uma Quinta não é apenas conservar árvores ou edifícios. É proteger tudo o que vive em redor.

Quantas vidas pode ter uma história de amor?

Primeiro, Alfredo terá plantado uma floresta para que Laura sentisse menos saudades de Sintra.

Depois, outros amaram suficientemente a propriedade para a reconstruir após o fogo. E há agora quem cuide das suas árvores, da sua memória, das comunidades vizinhas e de uma forma portuguesa de receber feita de atenção, acolhimento e empatia.

De um lado, as vinhas de Touriga Nacional aproximam-se das margens do Douro. Do outro, palmeiras, sequoias, camélias e uma magnólia centenária guardam uma pequena Sintra transplantada para norte.

Entre ambas permanece a casa.

Passou por reis, barões do vinho, escritores, cinema, fogo e hotéis. Mas a sua história mais bonita, talvez, continue a ser a primeira. A de um homem que percebeu que, para fazer uma mulher sentir-se em casa, não bastava construir-lhe uma casa. Era preciso plantar-lhe uma paisagem.

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