Skincare na infância | Fotografia: Pexels
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Skincare na infância: "A pressão estética está a surgir cada vez mais cedo"

O alerta não é novo, mas um novo estudo vem enfatizar: as crianças querem cuidar da pele, muitas vezes, de forma pouco adequada. Como mudar padrões? Fomos saber.

Há poucos dias estávamos numa cadeia de supermercado a fazer as compras da semana quando uma situação ao nosso lado nos deixou a refletir. Uma criança, com os seus 9 ou 10 anos, estava a fazer uma birra porque a mãe não a deixava levar maquilagem para casa. Onde vão os tempos em que a birra que fazíamos era porque não nos deixavam levar aquelas gomas revestidas de açúcar ou um pequeno brinquedo do qual nos fartaríamos em minutos? 

Os tempos mudaram, as novas gerações estão diferentes e satisfazem-se também de forma diferente, em parte devido à influência das redes sociais. A preocupação com a skincare e, mais longe ainda, com as rugas, começa desde cedo e a prova disso está num recente estudo do Centro de Pesquisa da Mulher do Grupo Boticário, realizado no Brasil.

Entre os dados principais, o estudo revela que sete em cada dez raparigas, entre os 8 e os 14 anos, se preocupam com a opinião dos outros sobre a sua aparência. E mais: uma em cada quatro já deixou de participar em atividades por causa da sua imagem.

Tendo em conta estes dados, a VERSA falou com Rossana Gama, Country Manager do Grupo Boticário em Portugal, para compreender melhor esta nova realidade em que a pressão estética começa desde a infância.

Qual dos dados do novo estudo mais a alarmou e porquê?

Este estudo revela vários dados que devem preocupar-nos enquanto cidadãos, pais e sociedade. Um dos mais alarmantes é o facto de 6 em cada 10 raparigas entre os 8 e os 14 anos já utilizarem, ou demonstrarem intenção de utilizar, produtos anti-idade, influenciadas sobretudo pelas redes sociais e pela crescente preocupação com a imagem.

Além disso, 36,7% das meninas afirmam que gostariam de mudar algo na sua aparência e quase 30% já consideraram recorrer a procedimentos estéticos como botox ou preenchimentos, números particularmente inquietantes tendo em conta a idade.

Estes dados mostram que a pressão estética está a surgir cada vez mais cedo, levando crianças a adotar rotinas e preocupações que não correspondem às necessidades da sua pele. O ambiente digital tem aqui um papel determinante, muitas vezes sem o devido enquadramento ou desenvolvimento de pensamento crítico.

Existe, por isso, um claro desalinhamento entre as necessidades reais da pele e os comportamentos de consumo, o que reforça a importância de promover literacia e educação desde cedo, não só sobre skincare, mas também sobre autoestima e relação com a imagem.

Pela sua experiência no terreno, sente que o consumo de produtos de beleza por crianças e pré-adolescentes tem vindo a crescer de forma consistente nos últimos anos?

Sim, claramente. Temos vindo a observar um crescimento consistente do consumo de produtos de beleza entre crianças e pré-adolescentes, com um início cada vez mais precoce. A skincare deixou de ser percecionada apenas como um cuidado básico e passou a assumir um caráter aspiracional, muito impulsionado pelo ambiente digital e por referências globais. Como consequência, vemos a adoção de rotinas cada vez mais complexas em idades que, até há pouco tempo, não estavam expostas a este tipo de práticas. 

Este contexto reforça a importância de acompanhar esta evolução com responsabilidade, garantindo que tanto a oferta como a comunicação estão alinhadas com as necessidades reais destas faixas etárias. Mais do que acompanhar tendências, é essencial contribuir para uma relação mais informada, equilibrada e saudável com o cuidado da pele.

É mais frequentemente serem os pais a escolher e comprar produtos de skincare para os filhos ou são as próprias crianças a decidir?

A decisão de compra é, na maioria das vezes, partilhada entre pais e filhos. No entanto, é evidente que as crianças já chegam com um elevado grau de influência das redes sociais, trazendo referências muito concretas de produtos, marcas e até rotinas. Nem sempre os pais dispõem da informação necessária para avaliar a adequação dessas escolhas, o que torna este processo mais desafiante.

Aliás, este é um dos dados mais relevantes do estudo: mais de metade das meninas que têm uma rotina diária de skincare não conhecem os componentes dos produtos que utilizam. Este facto reforça a importância de um maior acompanhamento por parte dos pais, mas também de uma responsabilidade partilhada – entre marcas, famílias e sociedade – para garantir escolhas mais informadas e adequadas à idade.

O que devem ter as fórmulas para os mais jovens?

Hoje, mais do que nunca, é essencial repensar a forma como desenvolvemos e apresentamos produtos para os mais jovens. No caso deste público, deve privilegiar-se a simplicidade e o foco em rotinas verdadeiramente essenciais.

As fórmulas devem garantir elevados padrões de segurança dermatológica, recorrendo a ingredientes suaves e adequados à idade, e evitando ativos potencialmente agressivos ou desnecessários, como os ácidos glicólico, mandélico ou kójico. O foco deve estar na hidratação e na proteção da pele, nomeadamente através da utilização de proteção solar, promovendo hábitos equilibrados desde cedo.

É precisamente neste contexto que surge o Pacto de Skincare Responsável do Grupo Boticário, assente em três pilares fundamentais. O primeiro é o de um Portfólio Consciente, que assegura a utilização de ingredientes seguros, alinhados com as melhores práticas e referências internacionais, sem impactos adversos para a saúde humana ou ambiental. O segundo pilar centra-se num Skincare Educativo, com o compromisso de promover uma maior literacia e um cuidado mais informado da pele, especialmente junto das gerações mais jovens. Por fim, ao nível da comunicação, todos os produtos com ativos e benefícios indicados para pele adulta (+18) incluem um selo do pacto e a indicação clara “Recomendado para peles adultas”, garantindo maior transparência e ajudando o consumidor a fazer escolhas mais conscientes.

O nosso objetivo é claro: contribuir para uma relação mais saudável com a skincare e, a longo prazo, fazer a diferença na qualidade da pele dos portugueses.

Como proteger e educar os consumidores mais jovens?

A proteção e educação dos consumidores mais jovens começa, inevitavelmente, pela promoção da literacia em skincare. É fundamental disponibilizar informação clara, simples e acessível, ajudando não só os mais jovens, mas também os pais, que desempenham um papel essencial como orientadores neste processo, a tomar decisões mais informadas. Paralelamente, importa incentivar a adoção de rotinas básicas, ajustadas à idade e às reais necessidades da pele, desmistificando a ideia de que “mais é melhor” ou de que cuidados complexos são necessários desde cedo.

Mas esta é uma responsabilidade que deve ser partilhada. Marcas, famílias, escolas e plataformas digitais têm um papel determinante na construção de uma relação mais equilibrada com a imagem e com o cuidado da pele.

Considerando que muitas crianças e pré-adolescentes replicam rotinas de skincare vistas online, como vê o papel das redes sociais na aceleração deste fenómeno e como travá-lo ou passar a usar as redes no sentido de educar?

As redes sociais são hoje um dos principais motores de influência no comportamento dos consumidores mais jovens. Por um lado, permitem a rápida disseminação de tendências e, em muitos casos, contribuem para a normalização de rotinas desadequadas, potenciando riscos associados à desinformação. Por outro, representam também uma oportunidade muito relevante para promover a educação e a literacia em skincare.

O desafio passa, precisamente, por encontrar esse equilíbrio. É fundamental reforçar a responsabilidade das marcas, dos criadores de conteúdo e das próprias plataformas, incentivando práticas mais transparentes e informadas, como a utilização de selos ou indicações claras que ajudem a identificar produtos recomendados para diferentes faixas etárias.

No Grupo Boticário, acreditamos que as redes sociais devem ser parte da solução. Utilizamos estes canais para chegar de forma mais próxima e eficaz ao consumidor, promovendo conteúdos educativos e contribuindo para uma relação mais consciente e equilibrada com o cuidado da pele

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