Nos últimos anos, basta abrir o Instagram ou entrar numa farmácia para perceber: Portugal está rendido à chamada “skincare coreana”. E quando digo rendido, talvez seja pouco: estamos fascinados.
Olhamos para os coreanos como se vivessem num “fuso horário” diferente do nosso, não apenas no relógio, mas no próprio ritmo do envelhecimento. A pele luminosa e uniforme associada à K-beauty transformou-se num ideal aspiracional, com a promessa de uma aparência cuidada e jovem, que acabou por levar à adoção de rotinas mais extensas, complexas, detalhadas e, muitas vezes, compostas por vários passos e produtos específicos, do “double cleansing” às essências, séruns e máscaras noturnas.
A rotina de três passos transformou-se num ritual de dez e quem ousa simplificar sente quase que está a falhar um mandamento da pele perfeita.
Este fenómeno não surgiu do nada. A chamada K-beauty, impulsionada pela vaga cultural sul-coreana – do K-pop às séries – tornou-se um símbolo global de inovação cosmética e de cuidado de pele. O crescimento deste segmento está amplamente documentado em relatórios de mercado internacionais, como os da Statista, que evidenciam a sua forte expansão nos últimos anos.
Mas há um ponto essencial que importa sublinhar: na dermocosmética, eficácia não é sinónimo de complexidade. As principais entidades dermatológicas, como a American Academy of Dermatology, defendem rotinas simples, consistentes e adequadas ao tipo de pele como base de um cuidado eficaz.
Enquanto farmacêutica e formuladora, vejo diariamente que a eficácia cutânea depende muito mais da qualidade e da adequação das matérias-primas do que da quantidade de produtos utilizados.
E aqui entra uma ironia curiosa.
Aberta desde 2018, a loja Couto, na Rua de Cedofeita, no Porto, recebe diariamente clientes muito diferentes: portugueses fiéis à tradição da Pasta Dentífrica Couto, curiosos que entram para descobrir a loja-museu, turistas estrangeiros que a incluem no roteiro da cidade. E depois há os coreanos, os que vivem cá e os que visitam Portugal. Entram quase sempre com um objetivo muito concreto: comprar a nossa vaselina.
Tudo começou com o aparecimento da Pasta Dentífrica Couto num videoclipe de SUGA, um dos membros da banda sul-coreana BTS, o que atraiu a atenção dos fãs para a nossa loja, que, além da pasta dentífrica, procuraram conhecer os outros produtos da marca. E rapidamente se transformou numa pequena corrente de visitantes coreanos que procuravam exatamente o mesmo produto.
A vaselina é um dos ingredientes mais simples e eficazes em dermocosmética. Trata-se de um agente oclusivo que reduz a perda de água transepidérmica (TEWL) de forma significativa, reforçando a função barreira da pele; um mecanismo bem documentado na literatura científica disponível em bases como a National Center for Biotechnology Information.
Na Couto, utilizamos vaselina de elevada pureza, conforme os requisitos de segurança definidos pelo Regulamento Europeu dos Cosméticos, estabelecido pela Comissão Europeia (Regulamento (CE) n.º 1223/2009).
Fomos perguntando aos clientes coreanos como a utilizavam. As respostas são simples e reveladoras:
– Hidratar as pálpebras antes de dormir
– Proteger lábios e nariz do frio
– Hidratar zonas secas como cotovelos e joelhos
– Suavizar a aparência de olheiras
– Usar como base para sombra de olhos
– Misturar com blush para melhorar a fixação
– Amaciar cutículas
– Prolongar o aroma e a durabilidade do perfume
Não se trata de um produto novo, nem de uma inovação recente. Trata-se de um clássico. Nada de revolucionário ou de passos complexos.
Esta troca silenciosa entre culturas recorda-nos que a inovação e a tradição não são opostas e que se complementam. Enquanto nós, portugueses, procuramos rotinas cada vez mais complexas para alcançar uma pele perfeita, há quem venha de longe para comprar algo profundamente simples e profundamente nosso. Talvez a verdadeira lição esteja aqui.
Na dermocosmética, a eficácia não reside na quantidade, mas na consistência. Não está no número de frascos alinhados na prateleira, mas na qualidade do que usamos e na forma como cuidamos de nós.
No fim, a beleza pode não ser uma questão de seguir tendências internacionais, mas de reconhecer valor no que já temos. Afinal, enquanto procuramos milagres importados, pode ser que a resposta esteja mesmo ali, na prateleira ao lado.
