Há musicais que até os que não são fãs do género conhecem. É, por exemplo, o caso do West Side Story, O Fantasma da Ópera, mas também de Evita — o espetáculo que conta, no formato de ópera rock, a história da ascensão e queda de Eva Perón, a controversa primeira-dama da Argentina, e que está, neste momento, em cena no Capitólio, em Lisboa.
Trata-se de um dos musicais mais icónicos de sempre e o papel principal — o de Eva Perón — já foi interpretado por várias estrelas ao longo dos anos desde Patti LuPone, Madonna e por Rachel Zegler, mais recentemente, no London Palladium, em Londres. Já em Portugal a responsabilidade ficou para uma das figuras incontornáveis do teatro musical português e internacional: Sofia Escobar.
Isto significa que nas próximas semanas, até 28 de junho, o público pode ver um elenco de luxo, composto pela artista, mas também por Diogo Morgado, no papel de Che, e Diogo de Carvalho, como Péron.
Entretanto, a VERSA conversou com Sofia Escobar para perceber como esta a encarar o desafio, as expectativas e o que faz com que um musical dos anos 70 continue tão atual. Como não podia deixar de ser, também falámos com Tony Miranda, o responsável pelos figurinos de Evita.
Já participaste em musicais icónicos desde O Fantasma da Ópera ao West Side Story e, agora, o Evita. O que sentes ao interpretar personagens tão conhecidas e adoradas? E o que destacas na Evita?
Interpretar personagens tão icónicas é, ao mesmo tempo, um privilégio enorme e uma grande responsabilidade. São figuras que já vivem no imaginário coletivo, com uma história, uma estética e até uma memória emocional junto do público. O meu desafio passa por honrar essa herança, mas também por encontrar um espaço de verdade pessoal dentro dela, algo que seja genuíno e único no momento presente.
Evita, em particular, distingue-se pela sua complexidade. Não é uma personagem linear nem consensual. É intensa, ambiciosa, vulnerável e profundamente humana. O que mais me fascina nela é essa dualidade constante: entre força e fragilidade, luz e sombra. É uma mulher que se constrói a si própria, mas que paga um preço muito alto por isso.
Numa das mais recentes versões deste musical, apresentada no London Palladium, em Londres, o momento em que Evita canta Don’t Cry For Me Argentina acabou por se tornar viral nas redes sociais. Há algum momento especialmente impactante na versão que está em cena em Lisboa?
Cada encenação traz uma nova leitura e uma nova energia. Na nossa versão em Lisboa, há vários momentos de grande impacto emocional, mas destacaria o facto de termos uma versão integral em português e também precisamente a forma como a presença da Evita vai sendo construída quase como uma figura mítica — quase fantasmagórica em certos momentos.
Existe uma tensão constante entre o público e o privado, entre a imagem pública e a mulher por trás dela. Isso cria momentos de grande intensidade, não apenas no icónico Don’t Cry For Me Argentina, mas também em cenas mais íntimas, onde sentimos o peso da solidão e da fragilidade por trás do poder.
Por falar em Don’t Cry for Me Argentina. É, sem dúvida, uma música conhecida e já foi interpretada milhares de vezes, incluindo por artistas como Madonna. O que fazes para distinguir a tua atuação das restantes?
Quando se interpreta uma canção tão conhecida, o mais importante, para mim, é fugir da ideia de “repetição” e procurar o momento presente. Tento aproximar-me da música como se fosse a primeira vez, com verdade, intenção e escuta interna.
Mais do que pensar em como a diferenciar tecnicamente, foco-me naquilo que a Evita está a viver naquele instante. O que é que ela precisa? O que é que ela quer dizer e o que é que talvez não consegue dizer? A partir daí, a interpretação ganha uma cor própria, porque vem de um lugar honesto e não de uma tentativa de imitação.
Para ti, o que faz com que este musical, criado nos anos 70, continue a ser tão atual e adorado?
O Evita, com música de Andrew Lloyd Webber e letras de Tim Rice, continua atual porque fala de temas universais: poder, ambição, desigualdade social, construção da imagem pública e a relação entre líderes e o povo.
Vivemos numa era em que a exposição mediática e a criação de narrativas públicas são mais fortes do que nunca, e a história da Evita toca precisamente nesses pontos. Ela foi, de certa forma, uma das primeiras figuras a dominar essa relação com as massas.
Para além disso, há algo profundamente humano na sua história, o desejo de ser amada, reconhecida e de deixar uma marca. E isso é intemporal.
E os figurinos...
Para Tony Miranda, a responsabilidade de vestir uma personagem tão icónica acabou por "representar um grande desafio, sendo ela uma figura emblemática da história da Argentina, conhecida pela sua força e capacidade de transformação social".
Todos os looks são importantes para a construção da personagem, mesmo assim, o designer consegue destacar dois especiais. "Primeiro, o vestido de baile azul-pálido, onde utilizei três saias em musseline de seda natural, pintado à mão, para a leveza da dança em palco".
Menciona ainda o "vestido principal em organza, em tons de dourado, com bustier de alta-costura, onde os detalhes como as nervuras requerem desafios técnicos na adaptação da matéria-prima para
o teatro, pois as peças são vestidas e despidas vezes sem fim durante meses", conta.
