Precisamos de dormir. Se estudarmos com muito cuidado, percebemos que não há quase nenhum animal, pelo menos daqueles que têm alguma forma de sistema nervoso, que não tenha pelo menos um período de sono nas 24h do dia solar. Por vezes, este sono é mais semelhante a um período de repouso, como nos insetos. Se o animal precisa de se manter em movimento, como os tubarões, a natureza desenvolveu um sono especial, em que um dos lados do cérebro alterna com o outro a dormir. Quando um lado dorme, só uma barbatana mexe. Se é uma ave migratória, o cérebro dorme vários microssonos, mantendo sempre a rota constante até ao destino.
Mas porque é que, ao longo destes milhões de anos em que a vida complexa evoluiu na terra, o sono foi sempre tão bem preservado?
Dormir é fundamental para a saúde do corpo e do cérebro. Há funções que são muito óbvias: enquanto dormimos, o repouso das nossas células cerebrais permite-lhes repor as reservas de energia que foram depletadas durante o dia. Mas há outras menos intuitivas: durante o sono, o nosso cérebro reorganiza as suas redes de neurónios e melhora o nosso desempenho de memória e aprendizagem, de raciocínio e de tomada de decisão. Ao longo do dia, os neurónios vão acumulando substâncias toxicas, que resultam das várias atividades a que as células estão sujeitas. De noite, o líquido que preenche parte do espaço entre as células cerebrais aumenta, dissolve e arrasta consigo estas substâncias para fora do cérebro, deixando o ambiente neuronal mais saudável.
Também o nosso corpo é influenciado pelo sono. O sistema imunitário regenera-se. As células musculares, em repouso, também reorganizam as fontes de energia, reparam as proteínas, acumulam os elementos fundamentais à contração muscular. As hormonas apresentam ritmos de produção que são dependentes do sono e da hora do dia. O nosso metabolismo oscila para se adequar a períodos de atividade e de repouso. De dia, estamos “em modo” catabólico ou seja, gastamos a energia que acumulámos. De noite, estamos “em modo” anabólico, ou seja, é altura para acumular, crescer, produzir reservas e elementos estruturais do corpo. Por isso, por exemplo, a hormona de crescimento se produz durante o sono. O cortisol, que é uma das “hormonas do stress” que nos prepara para a ação, tem um pico de produção nas primeiras horas do despertar.
Por isso, quando dormimos menos do que deveríamos, estamos a privar o nosso organismo deste enorme superpoder que é o sono.
De acordo com a National Sleep Foundation, um adulto deve dormir, em média, 7 a 8 horas por noite. Existem pessoas que dormem mais (até às 10h) e outras menos, entre as 6 e as 7h. Mas, na grande maioria dos casos, dormir menos de 6 h é dormir menos que o que necessitamos.
Dormir menos de 6h provoca efeitos agudos, que sentimos no dia seguinte. Estamos menos alerta, temos mais sono durante o dia, sobretudo em atividades mais paradas. Temos mais defeitos de concentração, mais dificuldades no raciocínio e na tomada de decisões. Ficamos também mais irritados e ansiosos, porque o sono também ajuda a regular as emoções. Podemos sentir mais dor, sobretudo se já sofrermos de alguma condição que provoque dor crónica. Ficamos mais impulsivos e com mais dificuldade de analisar os riscos das nossas decisões. Uma das consequências mais importantes desta privação aguda de sono é um grande aumento de risco de acidentes, sejam eles domésticos, profissionais ou de viação.
Se dormirmos menos de 6h de forma recorrente ficamos em privação crónica de sono. Essa condição coloca-nos vulneráveis a outros riscos. Vários estudos prospetivos, que seguiram durante vários anos pessoas analisando o seu tempo habitual de sono, demonstram que dormir menos de 6h de forma crónica aumenta o risco de diabetes, obesidade, hipertensão arterial, doenças cardiovasculares como o AVC ou o enfarte do coração, doenças neurodegenerativas como a doença de Alzheimer. Temos também maior vulnerabilidade a infeções. Estes estudos demonstram ainda que quem dorme menos de 6h morre, em média, mais cedo que pessoas que cuidam do seu sono.
Dormir mais de 6h está ao alcance de todos. O sono deve ser uma prioridade na organização da nossa vida e devemos dedicar-lhe o tempo necessário para nos sentirmos bem e em forma no dia seguinte. Mas há também pessoas que não dormem 6 horas porque sofrem de insónia e não conseguem dormir. Nesses casos, a procura de ajuda médica em consultas de Medicina do Sono é fundamental.
Cuide do seu sono.
