Nos últimos anos, as alterações climáticas têm deixado marcas profundas no mundo, e também em Portugal. As recentes tempestades e depressões provocaram inundações, destruição de infraestruturas, derrocadas e prejuízos avultados de norte a sul do país, cenário que mostrou que a vulnerabilidade climática é cada vez mais evidente. Não é, assim, de estranhar que as advertências feitas por Stephen Hawking antes da sua morte ganhem agora destaque.
Reconhecido como uma das mentes mais brilhantes do século XX, o físico Stephen Hawking construiu uma grande reputação ao procurar resolver os mais intrigantes mistérios do universo. As limitações impostas pela esclerose lateral amiotrófica, diagnosticada aos 21 anos, nunca o fizeram parar de investigar e de chegar a conclusões que podem ser assustadoras.
Ora nos últimos anos de vida, Hawking fez um alerta durante uma intervenção por videoconferência na Cimeira WE da Tencent, num fórum anual de tecnologia realizado em Pequim: se a trajetória atual se mantiver, “o fim da aventura humana na Terra” poderá acontecer já no ano 2600.
Até lá, afirmou, a população mundial estará “ombro a ombro” e o consumo energético será tão elevado que a Terra “brilhará em vermelho vivo”. Para o cientista, a principal força desta possível autodestruição é a superpopulação, uma vez que se o número de habitantes continuar a duplicar a cada quatro décadas, como tem sucedido em determinados períodos históricos, o consumo de recursos naturais e de energia tornará o planeta insustentável.
O calor gerado pela atividade humana ─ associado à queima massiva de combustíveis fósseis e à pressão sobre os ecossistemas ─ poderá transformar a superfície terrestre numa espécie de bola incandescente ao longo dos próximos seis séculos, fazendo deste um alerta profundamente climático.
No documentário da BBC intitulado Stephen Hawking: Expedition New Earth, o físico aprofundou este cenário. Advertiu que o aquecimento global poderá atingir um ponto de não retorno caso a atividade humana prossiga ao ritmo atual e, num cenário extremo, a Terra poderia tornar-se semelhante a Vénus: temperaturas à superfície próximas dos 250°C e nuvens carregadas de ácido sulfúrico.
Mas Hawking não se limitou ao pessimismo. Defendeu que a sobrevivência da Humanidade depende da sua transformação numa espécie multiplanetária. Inspirado pelo imaginário de Star Trek, argumentava que a exploração espacial não é um luxo, mas uma necessidade.
Entre os projetos que apoiou destacou-se o Breakthrough Starshot, uma iniciativa que pretende enviar uma nanonave até Alfa Centauri, o sistema estelar mais próximo com potencial de habitabilidade. A proposta? Uma sonda minúscula, impulsionada por feixes de luz, que chegaria a Alfa Centauri em cerca de 20 anos. Explorar novos mundos era, para Hawking, a única alternativa plausível perante uma crise energética e demográfica global.
As previsões de Stephen Hawking podem parecer distantes, afinal, 2600 está a séculos de distância, mas a essência da sua mensagem é profundamente atual porque o futuro da Humanidade depende das escolhas feitas no presente.
