Em Portugal, não se fala de outra coisa a não ser do mau tempo. A chuva continua, o vento também, e muitas pessoas ainda estão a tentar recuperar as suas casas, no fundo, as suas vidas depois dos danos causados pelo comboio de tempestades, em particular pela Kristin.
Há várias formas de ajudar, mas se há ajuda que não vem através de bens monetários é a saúde mental. Perante os acontecimentos, as pessoas afetadas estão mais vulneráveis a desenvolver stress pós-traumático, isto se não forem acompanhadas a tempo.
A VERSA falou com o psiquiatra João Cardoso, das Clínicas Leite, para saber em que casos se pode desenvolver stress pós-traumático, quais os sinais, quais os cuidados e quais as consequências a curto e médio prazo. Todas as respostas nesta entrevista.
De que forma eventos climáticos extremos, como as cheias e tempestades registadas recentemente em Leiria, podem desencadear stress pós-traumático em pessoas que nunca tinham apresentado problemas de saúde mental?
Eventos climáticos extremos, como o que vivemos recentemente em Portugal, expõem as pessoas a situações súbitas de ameaça à vida, perda de controlo e imprevisibilidade. Mesmo em pessoas sem antecedentes de saúde mental podem-se desenvolver respostas traumáticas quando enfrentam um perigo real e que sai completamente do nosso controlo. O trauma não depende apenas da suscetibilidade de cada um, mas da intensidade, duração e significado emocional da experiência vivida.
Quais são os sinais de alerta que indicam que o impacto psicológico do mau tempo pode evoluir para stress pós-traumático?
Há sinais a que será preciso estar atento nos próximos tempos, independentemente do grau em que tenham sido afetados, nomeadamente: reexperienciação (flashbacks, pesadelos), evitamento (evitar frequentar local associado ao evento, por exemplo), hipervigilância (estar sempre alerta, dificuldade em dormir), irritabilidade e dificuldades em concentrar-se nas tarefas do dia-a-dia. É normal haver um período breve em que estes sintomas estejam presentes nas pessoas que foram afetadas pela tempestade, no entanto, se se mantiverem por muitas semanas, forem muito intensos ou piorarem com o tempo e interferirem com o funcionamento diário, é fundamental procurar ajuda especializada.
Crianças, idosos e equipas de socorro são frequentemente apontados como grupos mais vulneráveis nestas situações. Que cuidados específicos devem ser tidos com cada um deles após um evento climático extremo?
De facto, são três grupos a que é especialmente importante estar atentos: crianças, idosos e profissionais. Às crianças é essencial garantir que a rotina se mantém, segurança emocional poderem expressar medos e receios. Nos idosos, atenção acrescida ao isolamento e atenção às doenças pré-existentes, como por exemplo as pessoas com demência que têm dificuldade em compreender o que ocorreu e porque as coisas mudaram. Os profissionais que estão no terreno a dar apoio às populações e que são expostos a stress contínuo e cansaço precisam de apoio psicológico estruturado, momentos de descanso, supervisão e normalização das reações emocionais após exposição repetida a cenários traumáticos.
No contexto português, que tipo de apoio psicológico deveria ser ativado a curto e médio prazo em regiões afetadas para prevenir consequências duradouras ao nível da saúde mental?
A curto prazo, é fundamental disponibilizar primeiros cuidados psicológicos nas zonas afetadas, com equipas treinadas para estabilização emocional e identificação precoce de risco. A médio prazo, devem ser assegurados circuitos de referenciação para Psicologia e Psiquiatria, integração com os cuidados de saúde primários e intervenções comunitárias que promovam recuperação, coesão social e prevenção de consequências psicológicas duradouras.
