A celebração do Dia Mundial Sem Tabaco assume em 2026 um cariz de urgência renovada sob o lema Unmasking the Appeal. Para a Sociedade Portuguesa de Pneumologia, este lema é um grito de alerta contra a constante adaptação de uma indústria que, perante o declínio do consumo do tabaco convencional, se reinventa com produtos desenhados para captar novas gerações de dependentes de nicotina.
A estratégia é clara: embalagens coloridas, sabores apelativos e uma imagem associada à modernidade e inovação. Contudo, por detrás desta estética aparentemente inofensiva permanece a mesma substância de sempre: a nicotina, uma droga altamente aditiva que comprovadamente compromete o desenvolvimento cerebral dos jovens.
Recentemente, o foco da atualidade nacional recaiu sobre as bolsas de nicotina. Este novo grupo de produtos, que permite um consumo discreto (coloca-se entre o lábio e a gengiva) e sem fumo, são a mais recente tentativa da indústria tabaqueira de normalizar e aumentar o consumo de nicotina. Embora a recente proposta de regulação em Portugal tente dar passos no sentido de controlar este mercado, a Sociedade Portuguesa de Pneumologia identifica lacunas preocupantes que podem comprometer a proteção da saúde pública.
Em primeiro lugar, a permissividade nos níveis de nicotina. A proposta atual admite concentrações elevadas que potenciam a dependência nicotínica, especialmente nos cérebros dos jovens ainda em desenvolvimento.
Em segundo lugar, enfrentamos uma incongruência legislativa: enquanto as formas de tabaco oral (como o snus) são proibidas em toda a União Europeia, à exceção da Suécia, as bolsas de nicotina nesta nova proposta governativa encontram uma janela de oportunidade para a sua venda em Portugal. Esta discriminação positiva, sem qualquer fundamento científico, permite que um produto altamente aditivo entre no mercado nacional.
Em terceiro lugar, sem a proibição total de sabores, sem a implementação de embalagens neutras e com as habituais dificuldades na fiscalização da publicidade nas redes sociais, estas estratégias de marketing predatório da indústria continuarão a ter como principal alvo crianças e adolescentes.
A mensagem da Sociedade Portuguesa de Pneumologia para este Dia Mundial Sem Tabaco é clara: não se pode permitir que a regulação continue a correr atrás do prejuízo. Uma regulação deficiente hoje será a dependência de amanhã. É urgente que Portugal adote uma postura de precaução, limitando drasticamente os níveis de nicotina, proibindo sabores e embalagens atrativas que visem o público infantojuvenil e, no mínimo, equiparando a fiscalização destes produtos à do tabaco convencional.
Desmascarar o apelo é revelar que por trás de cada bolsa de nicotina, cigarro eletrónico ou tabaco aquecido de design moderno, reside a mesma velha estratégia de lucro à custa da saúde. A proteção das gerações futuras exige coragem política hoje e Portugal não se pode dar ao luxo de perder décadas de progressos na luta contra o tabagismo sejam comprometidas pela inação ou falta de determinação política.
