Num tempo em que o design de interiores se afirma cada vez mais como extensão da identidade e do ritmo de vida contemporâneo, há quem proponha um caminho oposto: mais lento, mais silencioso, mais essencial.
A Thilburg inscreve-se precisamente nesse movimento. Fundada por Klaas e Orlando, a marca nasce de uma visão que cruza percursos internacionais com uma escolha deliberada por Portugal como centro criativo e produtivo. Através de uma colaboração próxima com oficinas artesanais e do uso de materiais locais, a Thilburg apresenta-se não apenas como uma marca de design, mas como uma posição cultural clara.
Na sua primeira coleção, "More or Less", a simplicidade é clara ao se ter eliminado o ruído (da cor, do ornamento, do excesso) para revelar o essencial. À Versa, Klaas e Orlando explicam como esta linguagem silenciosa é, ao mesmo tempo, uma resposta ao presente e uma proposta para o futuro do design contemporâneo.
Num momento em que o design contemporâneo parece oscilar entre o espetáculo visual e a produção em massa, a Thilburg escolhe o silêncio, a contenção e a matéria. Esta decisão é uma reação às tendências atuais ou uma consequência natural da vossa forma de olhar o design?
Talvez uma combinação de ambos. O nosso compromisso com a discrição é o resultado natural de uma filosofia que valoriza a essência permanente de um objeto acima do barulho das tendências passageiras. Ao remover a cor, mudamos o foco inteiramente para a beleza crua do material e o artesanato físico que define cada peça. Acreditamos que o verdadeiro luxo contemporâneo nem sempre se encontra no espetáculo visual.
Tendo em conta os vossos percursos internacionais, que lacunas identificaram no panorama atual?
A herança local é frequentemente subvalorizada ou limitada a estilos mais tradicionais. Vimos uma oportunidade de combinar a imensa riqueza do artesanato tradicional português com a sensibilidade do design contemporâneo, oferecendo uma alternativa mais sofisticada ao cenário saturado e orientado pelas tendências da produção em massa internacional.
A coleção "More or Less" evita cor. Qual a razão desta escolha?
Ao retirar a cor, eliminamos uma grande camada de distração e outros aspetos do objeto tornam-se mais claros: a sua forma, a sua sombra e a sua textura. Esta escolha força um diálogo direto com o próprio material, permitindo que as irregularidades naturais da pedra ou da madeira se tornem a narrativa principal da peça. Acreditamos que uma paleta sem cor cria uma sensação de "silêncio visual" que permite que a nossa coleção exista harmoniosamente em qualquer ambiente arquitetónico sem competir por atenção.
Portugal surge não apenas como local de produção, mas como centro criativo da marca, através da colaboração com oficinas artesanais e materiais locais. Por que razão escolheram Portugal?
Porque oferece uma sinergia rara entre o artesanato tradicional de alto nível e um respeito profundo pelo material. A alta concentração de oficinas e artesãos no país permite um processo de design colaborativo, no qual as técnicas tradicionais não são apenas preservadas, mas evoluem para atender a um padrão minimalista contemporâneo. Ao estabelecer o nosso centro criativo aqui, garantimos que cada peça da Thilburg tenha a autenticidade e a precisão do artesanato local.
Num mercado global marcado pela rapidez e pela constante novidade, como imaginam o futuro da Thilburg? Uma marca que acompanha tendências ou que se mantém à margem delas?
A Thilburg está muito feliz por existir à margem, pois acreditamos que a verdadeira longevidade só é possível quando uma marca se recusa a participar na corrida pela novidade constante. Imaginamos o nosso futuro não através das lentes das coleções sazonais, mas como um arquivo crescente de "novos clássicos" que permanecem relevantes independentemente da paisagem cultural em constante mudança. Ao mantermos o nosso compromisso com a nossa estética discreta e sem cor, garantimos que a Thilburg continua a ser uma âncora permanente num mundo cada vez mais caracterizado pelo ruído visual e pela obsolescência planeada.
Acreditam que o design com intenção a longo prazo veio para ficar?
Na nossa opinião, trata-se de uma evolução absolutamente necessária. O design com intenção de longo prazo é o único caminho viável a seguir, tudo o que pode contrariar a degradação ambiental causada pelos ciclos de consumo excessivo e desperdício. Para a Thilburg, é uma estratégia de negócios e uma verdadeira convicção que o valor de um objeto é realmente medido pela sua capacidade de envelhecer graciosamente e, com sorte, permanecer relevante ao longo das gerações.
