Os problemas da tiroide afetam milhares de pessoas e, durante muitos anos, as opções de tratamento pareceram limitar-se à vigilância, à medicação ou à cirurgia. Hoje, porém, a evolução da medicina trouxe alternativas menos invasivas, mais precisas e com tempos de recuperação mais rápidos — entre elas, a termoablação, uma técnica cada vez mais relevante no tratamento de determinados nódulos da tiroide.
Para nos ajudar a compreender melhor estas soluções terapêuticas, conversámos com a Dra. Teresa Dionísio, médica radiologista com subespecialidade em Radiologia de Intervenção e uma das principais referências nacionais nesta área. Atualmente a exercer no Hospital da Luz, em Guimarães, foi a primeira médica a realizar termoablações por microondas em nódulos da tiroide em Portugal em 2021. É também a especialista com maior número de termoablações da tiroide realizadas no país.
Nesta entrevista, falamos sobre em que consiste a termoablação, quem pode beneficiar desta técnica, que outras abordagens devem ser consideradas nos problemas da tiroide e de que forma a inovação está a transformar o tratamento destas patologias.
Tendo em conta que as doenças da tiroide afetam maioritariamente mulheres, quais são os principais fatores que explicam esta prevalência tão elevada no sexo feminino?
As doenças da tiroide são significativamente mais frequentes nas mulheres, sobretudo porque muitas destas patologias têm uma base autoimune, e a autoimunidade apresenta uma clara predominância feminina. Este fenómeno resulta de uma combinação de fatores hormonais, genéticos e imunológicos. Ao longo da vida da mulher, existem várias fases marcadas por alterações hormonais relevantes — como a puberdade, a gravidez, o pós-parto e a menopausa — que podem atuar como desencadeantes ou fatores de agravamento da doença tiroideia.
Quais são os sintomas mais comuns das disfunções da tiroide que muitas mulheres tendem a desvalorizar ou confundir com outras condições?
Os sintomas das disfunções da tiroide são frequentemente inespecíficos e facilmente confundidos com outras condições do dia a dia. No caso do hipotiroidismo, destacam-se o cansaço, o aumento de peso, a intolerância ao frio, a obstipação, a pele seca, a queda de cabelo, alterações de humor e dificuldades de concentração. Já no hipertiroidismo são comuns sintomas como ansiedade, irritabilidade, insónia, palpitações, perda de peso, tremor e intolerância ao calor. Muitas vezes, estes sinais são atribuídos ao stress, ao ritmo de vida ou a alterações hormonais, o que pode atrasar o diagnóstico.
Em que fases da vida da mulher há maior risco de desenvolver problemas na tiroide e porquê?
A gravidez e o período pós-parto são fases particularmente críticas, uma vez que implicam alterações hormonais e imunológicas significativas que podem desencadear ou agravar disfunções tiroideias. A tiroidite pós-parto é um exemplo clássico, podendo apresentar uma fase inicial de hipertiroidismo seguida de hipotiroidismo. A perimenopausa e a menopausa são também períodos relevantes, não só pelo risco aumentado, mas também porque os sintomas podem ser facilmente confundidos com os próprios desta fase da vida, atrasando o reconhecimento da doença.
Que exames são essenciais para um diagnóstico precoce e eficaz?
O diagnóstico inicial baseia-se em análises laboratoriais, sendo o TSH o principal marcador, geralmente complementado pela T4 livre e, em situações específicas, pela T3 livre. Quando há suspeita de doença autoimune, a avaliação de anticorpos tiroideus pode ser importante. Do ponto de vista estrutural, a ecografia tiroideia é o exame de eleição, permitindo caracterizar nódulos e orientar a necessidade de exames adicionais, como a punção ecoguiada para análise citológica.
Quais os tratamentos/terapêuticas que existem? E porque a termoablação da tiroide pode ser uma alternativa?
O tratamento das doenças da tiroide depende da patologia em causa. No hipotiroidismo, a abordagem é habitualmente a reposição hormonal com levotiroxina. No hipertiroidismo, podem ser utilizados fármacos antitiroideus, iodo radioativo ou cirurgia, conforme o caso. No contexto dos nódulos tiroideus, particularmente os benignos sintomáticos ou em carcinomas bem selecionados, a termoablação surge como uma alternativa minimamente invasiva à cirurgia. Trata-se de um procedimento percutâneo, guiado por ecografia, que permite, no caso de nódulos benignos, reduzir significativamente o volume do nódulo, aliviar sintomas e preservar a função da glândula tiroideia, evitando cicatriz cirúrgica e, em muitos casos, a necessidade de terapêutica hormonal vitalícia. No caso dos nódulos benignos passíveis de tratamento por termoablação com intuito curativo, esta técnica trata todo o nódulo e deixa margem livre de doença ao seu redor, fazendo desaparecer as células cancerígenas e evitando a progressão da doença.
Quais as principais vantagens da termoablação?
A termoablação da tiroide representa uma mudança real de paradigma porque permite tratar o nódulo mantendo praticamente intacta a glândula e evitando a lógica clássica de “retirar para resolver”. Ao ser realizada com uma agulha fina guiada por ecografia, não implica incisões nem disseção cervical, o que se traduz numa agressividade muito inferior à cirurgia. O impacto estético é nulo, não há cicatriz visível e o procedimento decorre habitualmente em regime ambulatório, com alta no próprio dia, o que reduz de forma significativa o peso físico e psicológico associado ao tratamento.
Uma das vantagens mais relevantes, e muitas vezes subvalorizada, é a preservação da função tiroideia. Como apenas o nódulo é destruído e o restante parênquima é poupado, o risco de hipotiroidismo é muito baixo quando comparado com a cirurgia, evitando em muitos casos a necessidade de terapêutica substitutiva crónica com levotiroxina. Este aspeto é particularmente importante em doentes jovens e em mulheres, que constituem a maioria dos casos, e nos quais a manutenção da função hormonal tem impacto direto na qualidade de vida a longo prazo.
Do ponto de vista da eficácia, a termoablação não deve ser encarada como uma solução paliativa. Os estudos mostram reduções volumétricas consistentes e progressivas do nódulo, podendo atingir reduções muito marcadas ao longo do primeiro ano. Esta diminuição traduz-se numa melhoria clara dos sintomas compressivos, da sensação de desconforto cervical e das alterações estéticas, sendo que, nos nódulos autónomos, pode ainda permitir o controlo da função tiroideia sem necessidade de cirurgia ou terapêutica com iodo radioativo.
O perfil de segurança é outro ponto forte. A ausência de anestesia geral elimina um conjunto relevante de riscos, sobretudo em doentes com comorbilidades. As complicações são raras e, quando ocorrem, tendem a ser transitórias, sendo a lesão do nervo recorrente pouco frequente quando o procedimento é realizado por operadores experientes. Também o risco de infeção ou hemorragia significativa é muito baixo, o que contribui para uma perceção global de segurança superior à das abordagens cirúrgicas.
A recuperação é praticamente imediata, com retorno às atividades habituais em um a dois dias e sem necessidade de internamento. Isto contrasta de forma evidente com a cirurgia, que implica um período de convalescença mais prolongado e maior interferência na rotina diária. Para muitos doentes ativos, esta diferença é decisiva na escolha terapêutica.
Por fim, a precisão do método, assegurada pela orientação ecográfica em tempo real, permite tratar o nódulo de forma seletiva e controlada, preservando estruturas adjacentes críticas como o nervo recorrente, a traqueia ou o esófago. Este controlo contínuo durante o procedimento aproxima a termoablação de uma “cirurgia funcional sem bisturi”, combinando eficácia com um nível de segurança e de preservação anatómica difícil de alcançar por outras técnicas.
Como saber se posso ser candidato à termoablação da tiroide?
A termoablação da tiroide é uma opção para doentes com nódulos já bem caracterizados, habitualmente benignos, que causam sintomas (compressão, desconforto, alteração estética) ou alterações funcionais, e cuja localização permite tratamento seguro guiado por ecografia.
Se tem um nódulo da tiroide e quer perceber se pode beneficiar desta abordagem, o passo seguinte é uma avaliação em consulta de Radiologia de Intervenção, onde são revistos os exames, confirmada a natureza do nódulo e discutida a melhor estratégia de tratamento para o seu caso.
