Carolina é eletricista. Marta trabalha na indústria mineira. E Charlotte é profissional de limpeza. Três profissões essenciais para o funcionamento da sociedade e três exemplos de trabalhos que poucos querem fazer. Em toda a Europa, há setores inteiros a enfrentar uma escassez de mão de obra, sobretudo em trabalhos manuais, como... obras.
É precisamente esse o setor profissional de José María, pedreiro espanhol de 64 anos, que trabalha desde os 14 e que continua no ativo em Madrid. Ao jornal espanhol El Español, José descreveu uma realidade que considera absurda: apesar da falta de trabalhadores, os critérios de recrutamento tornaram-se cada vez mais exigentes.
“Candidatei-me a uma oferta de trabalho para uma obra publicada por uma Câmara Municipal e, semanas depois, disseram-me que procuravam alguém que soubesse inglês”, contou. Depois, com ironia, acrescentou: “Não sabia que tinha de falar inglês com os tijolos”.
A frase resume um sentimento partilhado por muitos trabalhadores mais velhos: há procura urgente de mão de obra, mas as empresas exigem competências que nem sempre fazem sentido para funções essencialmente práticas. Por isso, muitos jovens preferem seguir percursos universitários e afastam-se das profissões manuais.
Na obra onde trabalha atualmente, José diz que quase todos os colegas têm mais de 50 anos. “Na minha obra só há um rapaz de 28 anos, o resto tem mais de 50”, explicou ao El Español. E aponta outro problema: os salários de entrada continuam pouco atrativos para quem começa. “A primeira coisa que os jovens perguntam é quanto vão ganhar. 1.200 euros? Para isso não trabalho.”
A questão salarial tornou-se ainda mais sensível com o aumento do custo de vida. José recorda os tempos da peseta e considera que o poder de compra caiu drasticamente nas últimas décadas. “Antes, com 400 pesetas podia comprar muitas coisas. Agora não chega nem para um café”, lamentou. Segundo o pedreiro, o salário praticamente não acompanhou a inflação. “Só me aumentaram 100 euros em 20 anos”, afirmou.
Mas a construção civil não é caso único. Em vários países europeus, setores considerados “duros” ou fisicamente exigentes enfrentam dificuldades semelhantes. Há falta de camionistas, soldadores, operários fabris, empregados de limpeza industrial ou trabalhadores agrícolas. São profissões indispensáveis, mas que muitos jovens rejeitam devido aos baixos salários, à instabilidade ou às condições físicas do trabalho.
Não é, assim, de admirar que muitos empregadores europeus vejam na imigração uma solução para preencher vagas que ficam por ocupar.
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