Tyra Banks, 1994
Tyra Banks, 1994
Coolhunting

Antes de culpar Tyra Banks pelo meu distúrbio alimentar... a anatomia da pedagogia televisiva

Assisti ao documentário mais falado dos últimos tempos com o horror moral que agora parece obrigatório sentir. Mas antes de apontar o dedo a Tyra Banks — e de lhe atribuir, de forma quase conveniente, cada fissura no meu distúrbio alimentar adolescente — talvez devêssemos repensar o que é entretenimento e o que é pedagogia televisiva sem currículo, sem contraditório e sem responsabilidade.

Houve um tempo em que eu acreditava que o programa America’s Next Top Model era entretenimento. Um ritual semanal acessível, lágrimas coreografadas e a promessa sedutora de que a beleza podia ser treinada como uma disciplina. Eu assistia religiosamente. E, como tantas adolescentes, aprendi a medir o meu corpo com a mesma fita métrica invisível com que mediam aquelas raparigas: coxas, cintura, sorriso, atitude, valor e dignidade.

No meu caso, não foi a indústria da moda que me ensinou a odiar o meu corpo. Foi o espetáculo de domesticação transmitido em horário nobre.

O documentário da Netflix Reality Check: Inside America’s Next Top Model não revela propriamente um segredo — revela uma anatomia. Mostra como a humilhação foi editada, como o trauma foi coreografado e como a violência emocional foi transformada em narrativa episódica. Concorrentes pesadas em frente às câmaras, incentivadas a remover cirurgicamente dentes, a mudar a pele, a identidade racial ou a história pessoal; jovens mulheres pressionadas até à exaustão física e psicológica; produtores a filmarem momentos de vulnerabilidade com a frieza de quem recolhe provas e não memórias.

Mas há um episódio relatado que atravessa qualquer fronteira televisiva: uma das modelos terá sido vítima de abuso sexual durante as gravações. A produção sabia. As câmaras continuaram. Ninguém interveio. O silêncio institucional não foi um erro — foi uma decisão. Quando a violência deixa de ser um acidente e passa a ser material utilizável, a televisão abandona a ficção e entra no território da cumplicidade.

@entertainmenttonight

'America's Next Top Model' panelist Nigel Barker is weighing in on cycle 2 contestant Shandi Sullivan's revelation that the show turned her sexual assault into a cheating scandal, admitting he was shocked they allowed it to happen. #ANTM #realitycheck #netflix

♬ original sound - Entertainment Tonight


E a pergunta torna-se inevitável: para quem se estava a filmar aquilo?

@netflixph the story behind one of the most memorable moments in America’s Next Top Model: Tyra Banks saying “We were all rooting for you!” #RealityCheck #AmericasNextTopModel #TyraBanks #TiffanyRichardson ♬ original sound - Netflix Philippines


Sim, Tyra Banks gritava, envergonhava, dramatizava e confundia “empoderamento” com disciplina punitiva. Sim, houve comentários angustiantes sobre corpos, cor da pele, dentes, peso e “comercialidade” que hoje reconhecemos como violência simbólica. E sim, a lógica do choque e da humilhação servia o mesmo deus que sempre serviu a televisão: audiências.

Mas a verdade desconfortável é que nós vimos tudo isto, como cúmplices e vítimas. E ficámos.

Tyra não estava sozinha no estúdio. Nem nós estávamos assim tão inocentes no sofá.

O documentário insiste em algo que nos custa admitir: este sistema não era apenas tolerado — era desejado. O público exigia drama, colapso, lágrimas, intensidade — um reflexo perturbador da nossa fome por sofrimento embrulhado como ambição e superação.

A televisão dos anos 2000 não inventou a crueldade; apenas lhe deu iluminação profissional.

Os juízes, produtores e executivos eram adultos. As concorrentes eram maiores de idade, mas vítimas do discurso. Todos operavam dentro de uma máquina que recompensava o limite ultrapassado. E quando esse limite se tornava viral — uma explosão emocional, uma transformação humilhante, um colapso nervoso — o programa transformava a controvérsia em promoção da temporada seguinte. Tal e qual o fizeram com este documentário. Queriam trazer à tona a verdade nua e crua do que realmente se passava... para no fim promoverem um novo capítulo.

É grotesco. E é familiar.

Assistir ao documentário hoje é uma experiência estranhamente física: o corpo encolhe, os ombros sobem, a memória desperta, e sim, chegam lágrimas de incredulidade. Não é nostalgia — é reconhecimento. O programa ensinou-nos a vigiar-nos a nós próprias, a internalizar o olhar crítico e a confundir disciplina com autodesprezo.

Eu não saí do liceu com um distúrbio alimentar por causa da Tyra Banks. Mas aprendi, com a sua pedagogia televisiva, que o meu corpo era um projeto inacabado.

E aqui reside a parte mais controversa: reduzir tudo a uma vilã é confortável, mas intelectualmente preguiçoso.

Porque Tyra Banks não é apenas a arquiteta do espetáculo — é também o seu produto. Uma mulher negra que ascendeu numa indústria construída sobre exclusão, que tentou democratizar a beleza enquanto replicava os mesmos mecanismos de controlo que a feriram. Ela foi simultaneamente disruptora e guardiã do sistema.

E talvez seja por isso que a sua figura incomoda tanto: porque encarna a contradição moderna entre empoderamento e exploração, visibilidade e mercantilização, inclusão e espetáculo. Isto soa familiar a quem não viu o programa em questão, certo?

O mais perturbador não é, talvez, o que o programa fez às concorrentes. É o que normalizou em nós. Rimos. Comentámos. Repetimos ofensas. Debatemos quem não tinha o que era necessário para sonhar com uma carreira. Consumimos a dor como narrativa e chamámos-lhe crescimento.

Hoje, sentimos choque, mas fomos audiência.

E se o documentário serve de autópsia cultural, também funciona como espelho contemporâneo. Porque não aprendemos grande coisa. O mundo continua a fazer manchetes com histórias de vida dramáticas e dolorosas, a criar reality shows que exploram vulnerabilidades, conflitos psicológicos e humilhação pública como combustível narrativo — dos formatos de confinamento emocionalmente predatórios aos programas que incentivam confrontos extremos, manipulação psicológica e exposição traumática em nome do “conteúdo”. No Brasil, por exemplo, reality shows como Big Brother Brasil são frequentemente criticados por episódios de humilhação pública, assédio verbal, isolamento psicológico e dinâmicas de humilhação coletiva que o público acompanha em tempo real, comentando nas redes como se assistisse a um desporto.

Mudam os cenários. Mudam as plataformas. Muda a linguagem do trauma. E até podemos ir aprendendo a melhorar pelo caminho.

Mas a economia emocional permanece.

Continuamos a recompensar humilhação, a gostar de consumir vulnerabilidade como conteúdo e a chamar autenticidade à exposição emocional. Continuamos a observar o colapso humano como quem observa um fenómeno natural — distante, fascinante e estranhamente satisfatório.

Tyra Banks pode ver os seus princípios questionados e ter construído um dos grandes palcos. Mas fomos nós que mantivemos as luzes acesas.

Como se costuma dizer, os formatos podem mudar... mas as moscas são as mesmas.

@iconichistory_ Who remembers this? 😭 America’s Next Top Model premiered on May 20, 2003, and quickly became one of the most talked-about reality shows of its time. Created and hosted by Tyra Banks, it brought the high-pressure world of modeling straight to living rooms around the world, mixing fashion, competition, and drama in a way viewers hadn’t seen before. Each week, contestants took on photo shoots, runway challenges, and critiques from a panel of industry figures including Nigel Barker, Jay Manuel, and J. Alexander. Their chemistry, humor, and unapologetic honesty became a huge part of what made the show so addictive. Running for 24 cycles, the series changed reality TV forever. It launched modeling careers, inspired countless parodies, and left an unforgettable mark on pop culture. #americasnexttopmodel #model #fashion #viral #fyp ♬ original sound - Pure Nostalgia
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"As melhores costelinhas de porco que já comi": Fãs de grelhados, este é o vosso sítio

Uma afirmação destas não passa despercebida — e foi precisamente o que nos levou a descobrir um restaurante que está a chamar a atenção dos fãs de grelhados.

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