O lendário designer italiano Valentino Garavani, o homem por detrás da maison Valentino e um dos maiores designers do seu tempo, morreu esta segunda-feira, dia 19, em Roma, aos 93 anos, rodeado pela sua família e amigos, segundo avança a imprensa internacional.
Valentino não foi apenas um criador de roupas. Foi um arquiteto de sonhos vermelhos — um vermelho que passou a significar poder, desejo e aspiração em desfiles e cerimónias no mundo inteiro.
A sua morte marca um fim abrupto para uma era do que podemos chamar de glamour clássico, aquele que muitos acreditavam ser eterno. Em décadas dominadas por logotipos, fast fashion e mudanças de consumo constantes a que já nos habituámos a chamar tendências, Valentino continuou, até ao fim, a representar um ideal quase antiquado: beleza deliberada, elegância absoluta e uma devoção quase obsessiva pela estética tradicional.
Mais do que vestidos vermelhos... a utopia
Valentino não se limitou a vestir as maiores celebridades ou figuras da aristocracia — ele criou uma linguagem visual própria, um repertório de símbolos que atravessou gerações. A sua assinatura, o célebre "Valentino Red", tornou-se tão icónica que mais do que uma cor, era uma declaração cultural, um statement.
Distanciou-se de modas efémeras e apostou na intemporalidade, um luxo raro num mundo em que tudo é descartável. Mesmo após saída de Valentino em 2008, a sua influência manteve-se: designers continuaram a beber da sua paleta, cortes e filosofia estética. Valentino foi celebrado por vestir Elizabeth Taylor, Audrey Hepburn, Jackie Kennedy, Julia Roberts, e tantos outros nomes de relevo, transformando-os em símbolos de desejo e admiração.
Mas esse mesmo ideal — raramente questionado em décadas anteriores — também representa algo do passado: uma moda feita para olhares de elite, museus e tapetes vermelhos, mais do que para as ruas, para o quotidiano ou para uma nova geração de criadores que procura diversidade, além desse tal “glamour antiquado”.
Hoje, com a sua partida, a moda enfrenta um choque de realidade: a linguagem clássica será suficiente para sustentar um império criativo por si só no século XXI? Talvez não. A nova geração quer histórias, causas, representatividade e experiências que transcendam um vestido perfeito.
Pode parecer polémico admirá-lo por isso, mas Valentino não construiu apenas roupas, construiu utopias. As utopias são de uma beleza inquestionável, mas vivem isoladas. São sempre inspiradoras, mas vivem para os obsessivos. Ele celebrou o luxo como poucos, e agora deixa um vazio — a ausência de uma estética que parecia imortal e que, de repente, sente-se frágil em tempos dinâmicos e ultra-críticos.
Quem sabe, a moda contemporânea pode vir a reconhecer o que Valentino sempre ensinou: a beleza importa. Mas só se carregar significado e abrir espaço para novas vozes.
