O mundo está a arder. Não poeticamente. Está mesmo a arder. A Ucrânia continua a sangrar, Gaza mal consegue chocar porque se tornou um ruído constante, a Venezuela transformou o colapso económico num estado permanente de alma, e Trump — como um eco que se recusa a morrer — continua a provar que o absurdo não tem fundo.
E eu?
Eu estou a atualizar uma folha de Excel.
Enquanto regimes caem, enquanto democracias fingem que ainda respiram, eu escolho se esta célula fica a verde ou a amarelo. Porque decidimos que esta era a prioridade. E eu aceitei. Como todos aceitamos. É aqui que começa o desconforto: não é que sejamos indiferentes — é que somos funcionais.
Dave Chappelle nunca teve paciência para moralismos fáceis, parte do charme do humorista. O que ele repete, vezes sem conta, é que o mundo não vai parar para nos proteger. Ele disse-o de forma brutalmente simples:
“O mundo não pode dizer quem tu és. Tu só tens de descobrir quem és e estar presente, para o bem ou para o mal.”
E talvez seja isso que estamos a fazer quando continuamos a trabalhar enquanto tudo desmorona. Não é coragem. Não é heroísmo. É identidade mínima. É dizer: isto sou eu, mesmo enquanto tudo falha.
Ricky Gervais vai mais longe — ele não tenta salvar-nos do desconforto, empurra-nos para dentro dele. Quando fala do papel do humor perante o horror, é claro:
“Se não se pode fazer piadas sobre as coisas mais horríveis do mundo, qual é o sentido das piadas?”
Não é falta de empatia. É uma constatação brutal: se absorvêssemos verdadeiramente cada criança morta, cada discurso vazio, cada líder corrupto a sorrir para as câmaras, simplesmente deixaríamos de funcionar. Então rimos. E depois abrimos o portátil. E depois lavamos a loiça. E depois respondemos a e-mails como se o planeta não estivesse a falhar em direto.
É aqui que entra a ironia obscena: o mundo está a colapsar — e nós continuamos a fazer check nas nossas tarefas medíocres.
Trocar lâmpadas enquanto um país inteiro fica às escuras.
Organizar o frigorífico enquanto milhões passam fome.
Atualizar relatórios enquanto a Venezuela se afunda num looping de miséria política e económica.
Agendar reuniões enquanto Trump promete “salvar” uma América que já não sabe(mos) o que é.
Albert Camus chamou-lhe absurdo. Não como metáfora elegante, mas como diagnóstico:
“A própria luta em direção às alturas é suficiente para encher o coração de um homem.”
Não há promessa de resolução. Só o esforço contínuo de subir sabendo que a montanha pode ruir. E nós subimos com tarefas ridículas como armas de sobrevivência: listas de supermercado, agendas, máquinas de roupa, ginásio, manicure, Excel.
Mas atenção — isto não nos inocenta. Hannah Arendt avisou-nos que o verdadeiro perigo não vem do caos, mas da habituação ao caos (e não é que já deu para habituar?):
“A triste verdade é que a maior parte do mal é feita por pessoas que nunca se decidiram a ser boas ou más”
Continuar a viver enquanto tudo desmorona é, ao mesmo tempo, resistência e cumplicidade. E é isso que incomoda. Porque sabemos que o nosso conforto depende da nossa capacidade de ignorar — mas só o suficiente para não enlouquecer.
E aqui está a parte que ninguém gosta de admitir em voz alta: a saúde mental precisa desta continuidade artificial.
Viktor Frankl, psiquiatra judeu que viu o pior que a humanidade consegue produzir, escreveu:
“Quando já não somos capazes de mudar uma situação, somos desafiados a mudar-nos a nós mesmos”
Dobrar roupa, cozinhar, trabalhar, cumprir horários — não é futilidade pura. É sobrevivência psicológica. É o que impede que o colapso global se torne colapso interno.
O mundo está a cair.
E eu?
Eu “salvei” um ficheiro de Excel. Amanhã há mais células para atualizar. Talvez o mundo ainda esteja de pé. Talvez não.
Mas, pelo menos, a minha folha de Excel está perfeita.
E essa perfeição inútil, quase ofensiva, é o que me permite continuar a acordar num mundo que já não promete nada — e mesmo assim exige que eu funcione.
Mas talvez seja precisamente depois dessa perfeição (quase) inútil que acontece a única coisa vagamente útil do dia. Fecho o Excel, alongo as costas como quem acabou uma grande obra, e tiro cinco minutos para fazer coisas radicalmente subversivas: informar-me antes de votar, separar o lixo, ajudar um amigo. Nada heróico. Nada digno de prémio Nobel. Apenas atos escandalosamente normais.
Não vão acabar com a guerra.
Não vão calar Trump.
Não vão salvar a Venezuela.
Mas irritam ligeiramente o caos. E hoje em dia, irritar o caos já é ativismo.
É aqui que a ironia atinge o auge: preciso da folha de Excel perfeita para ter energia mental para fazer estas coisas mínimas que, juntas, ainda mantêm o mundo vagamente respirável. A produtividade vazia paga a conta da decência. O capitalismo financia a empatia. O absurdo sustenta a consciência.
O mundo continua a cair.
E eu continuo a funcionar.
Porque entre duas células bem formatadas e um gesto humano básico, ainda há espaço para não ser completamente inútil. E, francamente, em 2026, isso já conta como progresso. Como lembrou Dave Chapelle no seu último especial, "estou aqui apenas para lembrar que somos uma comunidade e que vamos manter a sanidade juntos. Vamos cuidar uns dos outros... " e depois acrescentou algo sobre um tal de "idiota laranja"...
