Vanda Jorge, diretora da VERSA
Vanda Jorge, diretora da VERSA
Coolhunting

Isto não é sobre trabalho. É sobre Vanda Jorge, o 'spirit animal' da VERSA

Porque a VERSA é assumidamente controVERSA, e há coisas que simplesmente fazem sentido quando não pedem autorização para existir. Enquanto os comuns-mortais passam metade da vida a tentar não dizer a coisa errada sobre quem manda, nós sempre tivemos uma curiosidade quase estética pelo moralmente inconveniente. O tabu para muitos é, por aqui, prato do dia.

E convém esclarecer: isto não é uma crónica sobre hierarquias, liderança ou power dynamics corporativas, muito menos sobre a minha diretora. Não me interessa a mulher enquanto cargo. Interessa-me a mulher enquanto persona. Enquanto figura rara. Enquanto espécie cada vez menos vista num mundo obcecado em parecer agradável.

Em dia de aniversário da VERSA, hoje escrevo sobre Vanda Jorge, o meu (nosso) spirit animal.

E não uso a expressão na sua versão preguiçosa de internet, feita de memes e signos lunares. Falo de spirit animal no sentido adulto da coisa: aquela pessoa que encarna uma versão de nós mais crua, menos domesticada, ligeiramente imprudente e por isso irresistível. A pessoa que vive sem os amortecedores emocionais que o resto de nós instala para sobreviver socialmente.

Vanda Jorge é isso.

É também aquilo a que eu chamo luxury toxic. E não, não tem nada que ver com saldos bancários. Luxury toxic é um posicionamento existencial. É desejar o melhor mesmo quando o orçamento do mês sugere contenção. É acreditar que a visão nunca deve ser “suficiente”; deve ser premium. É escolher Perrier-Jouët, não Moët & Chandon. É preferir qualidade ao consenso. É tratar o bom gosto como valor moral.

Há quem possa chamar irresponsabilidade. Eu chamo critério.

Veste o que é bom, não o que o algoritmo empurrou esta semana. E sinceramente invejo qualquer pessoa que ainda viva nesse estado de pureza. Não é mulher do digital. É mulher da descoberta pelo mundo — esse hábito antigo de ir ver com os próprios olhos, em vez de consumir tudo através de ecrãs e opiniões alheias.

Numa viagem a Bali que fez, contou-me que alguém lhe perguntou quem era Vanda Jorge. A pergunta parecia simples. A resposta não tanto. Disse que era jornalista. Hoje, pensa melhor. Porque o trabalho, apesar de ocupar o calendário, não devia ocupar a identidade. Mas há outra resposta que poderia ter dado: coolhunter.

Para ela, o interessante nunca chega por acaso nem num feed de uma influencer — descobre-se. O coolhunting, no seu caso, não é profissão nem pose; é curiosidade aplicada. É reparar no detalhe que os outros ignoram, antecipar o que ainda não foi validado, reconhecer valor antes de existir "naquele lugar a que convencionaram chamar de futuro", como diz. 

Conversar com a Vanda é perceber isso em tempo real. Uma viagem sem hype. Uma pessoa ainda fora de circuito. Uma ideia antes de virar opinião pública. Há quem use o Pinterest. Ela usa atenção.

Fala de saúde mental sem transformar vulnerabilidade em branding. O que hoje quase parece revolucionário. Há demasiada gente a usar trauma como estética e autoconsciência como estratégia de engagement. Ela nem sabe o que é engagement. Ela é vulnerável porque sim. Porque faz parte da vida. Porque nem tudo precisa de virar conteúdo.

Fuma cigarros como nos filmes antigos — não como incentivo, mas como linguagem corporal. O perfume Armani anuncia a chegada, o humor confirma a presença. Há pessoas que entram numa sala; outras alteram-lhe a temperatura. Vanda pertence à segunda categoria.

Vanda Jorge

E depois há gestos que a modernidade tentou matar, sem sucesso. Retocar a maquilhagem a meio do dia. Confirmar o batom ao espelho. Repor perfume antes de voltar ao mundo. Pequenos rituais daquele dito glamour que hoje parecem quase radicais numa era que confunde desleixo com autenticidade.

Talvez por isso o meu spirit animal continue a ser esta ideia antiga e (im)perfeita: tolerar o mundo enquanto fumo um cigarro e retoco o batom.

O humor e a opinião dela não são para todos. Ainda bem. Nada verdadeiramente interessante é.

Vivemos numa era em que toda a gente quer ser consensual, palatável, fácil de consumir. Pessoas editadas para não ofender, opiniões embaladas em espuma, personalidades com arestas limadas por medo de rejeição. A simpatia tornou-se moeda social. O frete tornou-se norma. E de repente ser frontal parece um ato de vandalismo.

Vanda Jorge nunca concorda só porque sim. Nunca deixa de o dizer porque alguém pode não gostar de discordar. Se não devia ter dito o que disse? Talvez, mas há coisas que só soam desmesuradas porque nos habituámos ao morno.

Até porque nem todos apreciam pessoas charmosas. Sobretudo porque o charme raramente é característica dócil. O charme real não pede licença, não explica demasiado, não se torna menor para caber no conforto alheio.

Talvez seja isso que tanta gente confunde com “demasiado”. Mulheres demasiado francas, demasiado exigentes, demasiado vivas, demasiado conscientes de si. Curioso como o excesso feminino costuma ser apenas autonomia mal digerida por terceiros.

Admiramos autenticidade em teoria e punimo-la na prática. Queremos personalidade, desde que venha diluída. Queremos mulheres fortes, desde que sorridentes. Queremos irreverência, desde que inofensiva.

Eu prefiro outra coisa.

Se a VERSA tivesse um spirit animal seria uma mulher que recusa ser suavizada.

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