Viver a Viajar | Fotografia: D.R.

Viver a Viajar: "Viver na estrada e viajar com um orçamento reduzido é desafiante"

Inês e Jorge lançaram-se ao desafio: viajar pelo mundo de mota e van. À VERSA contam esta aventura desde o início, sem esquecer as sete idas ao mecânico ou as mudanças de rota.

No dia 3 de março foi anunciada a aventura: dar meia volta ao mundo antes dos 30 durante oito meses. Quem os conhece sabia que mais tarde ou mais cedo Inês Prates e Jorge Silva partiriam numa viagem longa como esta, quem não os conhecia estava pronto a descobrir através da página de Instagram Viver a Viajar como é que é possível viajar pelo mundo com pouco mais de 10 mil euros. 

O objetivo estava traçado e 2025 era o ano: viajar de mochila às costas durante 37 dias pela Ásia e percorrer a Europa até à Turquia numa van, satisfazendo assim os desejos de ambos. Para cumprir o plano inicial, Inês e Jorge tiveram de abdicar de muito para juntarem dinheiro antes de tirarem uma licença sem vencimento e partirem para o mundo sem uma fonte de rendimento extra. 

Viver a Viajar é o título da página através da qual partilham a aventura com os seguidores, mas também o modo como querem viver as suas vidas, apesar de todas as peripécias que enfrentam pelo caminho. A VERSA quis saber algumas, assim como os planos para o futuro do casal Viver a Viajar. 

Inês e Jorge contam-nos tudo nesta entrevista. 

Quem está por detrás do projeto Viver a Viajar? 

Somos a Inês e o Jorge, temos 28 e 29 anos, respetivamente, e nascemos e crescemos em Benavente, onde vivemos também atualmente. Somos licenciados em Gestão Comercial, embora o Jorge desempenhe atualmente a função de eletromecânico industrial, área que tirou no secundário. Já eu, Inês, estou a exercer na área de formação, sendo comercial numa empresa de produtos de estética.

Estamos juntos há 11 anos e começámos logo a viajar. Fomos para Madrid seis dias, sozinhos, tinha a Inês acabado de fazer 18 anos e nessa viagem aconteceram logo algumas peripécias, inclusive perdermos o voo de volta para Portugal. Poderia ter sido algo muito negativo para nós, mas teve o efeito contrário. Despertou um grande gosto por viajar e viver experiências e aventuras únicas pelo mundo. 

Quando e por que razão decidiram largar os empregos e partir em direção ao mundo? 

Com o tempo e com a experiência fomos moldando a nossa forma de viajar. Gostamos de ir à descoberta sem grandes planos, para destinos mais autênticos, e da forma mais barata possível.

Foi no início de 2020, quando apareceram os primeiros casos de COVID-19 que fomos viajar  um mês para a Tailândia e Malásia, de mochila às costas e com muito pouco dinheiro. Esta foi a primeira vez que nos sentimos completamente livres, só nós os dois do outro lado do mundo, apenas com as nossas mochilas. Foi das experiências mais impactantes, que despertou um interesse muito grande para conhecermos locais mais crus, apreciarmos o estilo de vida das pessoas, ver com os nossos olhos como cada cultura tem o seu lugar e a sua importância. 

Assim que regressámos a Portugal, o mundo fechou por causa da COVID-19 e sentimos uma diferença brutal de estarmos completamente livres para completamente confinados. Foi nessa altura que começámos a pensar numa grande viagem a longo prazo, não sabíamos bem nem quando, nem como iríamos fazer, mas começámos logo a trabalhar para isso. 

Foram cinco anos a juntar dinheiro para este objetivo. Nunca tivemos uma data de partida definida e esta ideia foi mudando ao longo dos anos. Havia vezes que tínhamos muita vontade de vir, outras que só queríamos uma vida mais estável, mas nunca deixou de estar lá o bichinho. Com alguns acontecimentos na nossa vida e algumas perdas de pessoas próximas, percebemos que a vida é curta demais para esperar e começámos a ter medo de “um dia vamos”, mas se esse dia nunca chegar a acontecer. A vida é frágil demais para esperarmos fazer aquilo que mais amamos e há cerca de um ano decidimos que ia mesmo acontecer: 2025 era o ano.

Começámos a juntar o máximo dinheiro que conseguíamos, porque a ideia era despedirmo-nos do emprego. Tínhamos de estar financeiramente confortáveis para fazer a viagem, manter algumas despesas fixas em Portugal e ainda termos algum fundo para quando regressássemos. Mas a questão de nos despedirmos estava a ser difícil, não por medo, mas por gostarmos realmente do que fazemos profissionalmente. Então pensámos em sugerir às nossas empresas uma licença sem vencimento. Foram ambas aceites e essa foi a cereja no topo do bolo, porque nos dá uma grande segurança para quando regressarmos.

Tirámos oito meses para viajar para onde quiséssemos. Estiveram muitas hipóteses em cima da mesa, porque o que realmente nos motivava era o ir, não como nem para onde, mas ir viver no mundo a longo prazo. 

Como foi feita a escolha do primeiro destino? 

Definimos um budget e a partir daí começámos a fazer vários orçamentos para perceber o que melhor se encaixava. Eu, Inês, queria ir para a Ásia de mochila às costas e o Jorge queria ir até à Turquia na nossa Van e eis que conseguimos encontrar uma solução para satisfazer ambos. 

Viajar pela Ásia requer outro tipo de custos comparativamente a viajar de van então definimos ir 37 dias para a Ásia, regressar, ficar umas semanas e voltar a partir na van pela Europa até chegar à Turquia. 

Também há muito tempo que queríamos ter a experiência de fazer um país de moto e ficou claro que o destino escolhido da Ásia seria o Vietnam, por ser bastante fácil comprar e vender uma moto e também por ser um país bastante económico. Fizemos desde Hanói até Ho Chi Minh numa pequena scooter que nos custou €200. Foram mais de 2500 km, sete vezes no mecânico, locais bastante remotos e uma das experiências mais enriquecedoras que já tivemos.

 

Deixar uma vida para trás para descobrir novas culturas nem sempre é fácil. Quais os maiores desafios?

Deixar a vida para trás para vir à descoberta do mundo faz-nos sentir livres e vivos, todos os dias são diferentes e esta é uma experiência muito rica em vários sentidos. Sabemos que vamos chegar a Portugal com um grande conhecimento e uma grande bagagem, mas nem tudo é um mar de rosas. Ambas as viagens, tanto a do Vietnam como a de van pela Europa, são desconfortáveis e bastante cansativas. Corremos bastantes riscos em andar na estrada, nunca sabemos como vai ser o dia de amanhã, como vai ser a estrada de amanhã, nem onde vamos dormir amanhã. Muitas vezes tomamos banho de água fria, dormimos em parques de estacionamento, conduzimos muitas horas, temos de nos preocupar com a quantidade de água que gastamos e tudo é racionado. 

Viver na estrada e viajar com um orçamento reduzido é desafiante. Temos de ter muita noção dos gastos, porque não estamos de férias e muitas vezes essa é a frase que mais dizemos a nós mesmos para não cairmos na tentação de comer fora, de comprar isto ou aquilo ou de gastar dinheiro em coisas que realmente não precisamos.

Também não é fácil deixar tudo para trás, principalmente a nossa família, amigos próximos e as nossas coisas. Foi complicado selecionar o que trazer. Temos pouco espaço, então temos de ser o mais minimalistas possível, mas com o tempo percebemos que muita das coisas que temos/usamos no nosso dia a dia são puro consumismo e que não necessitamos realmente delas. 

O que é mais prazeroso nas viagens que fazem?

A liberdade. Não somos pessoas de muitos planos, nem de pesquisas, e isso já nos levou a lugares incríveis. Muitas vezes lugares que não aparecem na rota turística e isso faz com que nos envolvamos mais com a população. Gostamos de lugares onde só falam a própria língua, onde nos mostram como é o seu dia a dia, lugares genuínos e crus. 

Dos maiores prazeres que temos em viagem é sentar num banco de jardim e ficar a observar a vida à volta, como as pessoas agem no seu dia a dia. 

Nós viajamos para isso, para observar pessoas diferentes, culturas diferentes, modos de vida diferentes e isso torna-nos melhores pessoas. 

Não fazem planos ou pesquisas. É mesmo tudo na base da aventura?

Nós temos sempre uma rota pensada, mas que nunca cumprimos. É difícil traçar rotas antes de estar nos lugares. Muitas das vezes as rotas e planos são feitos a partir da opinião dos outros, mas a opinião e a experiência de cada pessoa é algo muito pessoal. Preferimos decidir quando estamos nos sítios. Vamos onde queremos, onde sentimos que devemos de ir e se não gostarmos vamos embora, se gostarmos ficamos mais tempo. 

Têm uma van. Como foi o processo de a tornarem na vossa casa?

Comprámos a van com o objetivo de termos mais uma forma de viajar e ainda mais economia. Nunca tínhamos experimentado nada do género, então não queríamos investir muito dinheiro, por isso comprámos uma carrinha com quase 30 anos, uma Ford Transit de 95. Nessa altura só víamos vídeos de transformações no YouTube, tentámos adquirir o máximo de informação e metemos mão à obra. Fizemos toda a parte elétrica, isolamento e revestimento e pensámos em todo o projeto, mas por falta de tempo tivemos de recorrer a um profissional para nos fazer os móveis e também colocar os equipamentos. Nessa altura ainda não estava nos planos viajarmos a longo prazo nela, então tudo o que tínhamos chegava perfeitamente para o uso que lhe dávamos. 

Assim que decidimos fazer todos estes meses na carrinha, tivemos de pensar em soluções para podermos estar mais confortáveis e voltámos a trabalhar nela. Aí já fomos nós a fazer tudo, melhorámos equipamentos, tirámos móveis e substituímos por outros, tudo para que se assemelhasse mais a casa e tivesse também mais espaço de arrumação. 

Somos totalmente autónomos e temos tudo o que precisamos dentro desta pequena carrinha, que é muito especial para nós. Além de ser a nossa casa durante todos estes meses e o nosso meio de transporte para podermos andar pelo mundo, também foi o veículo que nos levou ao altar no nosso casamento.

Dia do casamento de Inês e Jorge | Fotografia: D.R.

Todo o processo de transformação foi algo que nos deu bastante prazer e um dos nossos grandes objetivos futuros é voltar a fazer um projeto deste género, de raiz. 

 

Recentemente desistiram da rota que estavam a seguir na Europa. O que aconteceu? 

A rota pensada era sairmos de Portugal em direção à Turquia pelo sul e regressarmos pelo centro da Europa. Tínhamos planeado ir em direção a Barcelona, apanhar o ferry para a zona de Roma e aí começarmos a verdadeira viagem, mas um dia antes de partirmos mudámos logo o plano inicial. Sabíamos que era necessário uma autorização para passarmos em Barcelona, por causa das emissões, sabíamos que era necessário solicitar essa emissão com alguma antecedência, só não sabíamos é que essa antecedida era de 15 a 20 dias, por isso descartámos logo a ideia do ferry e fizemos todo o sul de França em direção a Itália. 

A realidade é que numa viagem destas é muito difícil cumprir o plano, há inúmeros fatores que fazem mudarmos a rota. Éramos para ficar dois dias na Eslovénia e acabámos por ficar seis e foi dos países mais bonitos que passamos. Éramos para fazer o norte de Montenegro em direção ao Kosovo e Macedónia, mas estava a chover há muitos dias e por essa rota íamos continuar a apanhar chuva, então, como já estávamos cansados de mau tempo e não estávamos a usufruir, mudámos a direção e descemos toda a costa de Montenegro e Albânia. 

Estamos neste momento na Grécia e também já mudámos várias vezes a rota devido a uma nova lei que o país implementou por causa do estacionamento de vans/caravanas. 

É realmente difícil seguir uma rota neste tipo de viagens, mas, na nossa opinião, isso é o que vai fazer a viagem: os imprevistos, as mudanças e a adaptação. 

Conseguem que este projeto seja uma fonte de rendimento? Como estão a fazer financeiramente?

Esta viagem está a ser financiada exclusivamente com dinheiro que juntámos a longo prazo para este efeito. Foi um projeto pensado a dois e os dois trabalhámos para isto acontecer. Tivemos de abdicar de algumas coisas para conseguirmos, mas temos de saber definir prioridades e só assim conseguimos. 

Para fazer esta viagem nunca pensámos em trabalho remoto ou outro tipo de fonte de rendimento, queríamos estar completamente livres para usufruir ao máximo. De momento já pensámos em estratégias de começar a rentabilizar este projeto e já temos algumas ideias que tencionamos colocar em prática futuramente.

O que se segue no projeto Viver a Viajar? Quais os objetivos e próximos destinos? 

Esta página nasceu para podermos partilhar o nosso estilo de vida e a forma como viajamos. 

Já fizemos viagens incríveis com orçamentos muito baixos e gostamos de partilhar isso para mostrar que é possível. Uma viagem pode ser bastante económica, se for feita com equilíbrio e com simplicidade. Esse é um dos grandes objetivos e tencionamos focarmos neste ponto, em viagens económicas, tanto de avião, como de van. 

Queremos ainda experimentar outros tipos de viagens, principalmente viajar de bicicleta, e queremos conhecer lugares mais autênticos e com culturas mais vincadas. O destinos/viagens que estão no topo da nossa lista são: China, Índia e Marrocos de bicicleta. 

Todas as ideias pensadas para tornar esta paixão em fonte de rendimento vamos colocar em prática quando regressarmos desta viagem, mas por enquanto a Turquia é o caminho. 

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