Fotografia: D.R.
E se as noites de verão no Algarve fossem outra coisa? Aqui, são, e começam num novo rooftop...
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Francisca Salema
- 30 jun, 07:56
A VERSA foi conhecer o novo rooftop que vai marcar as noites algarvias... mas o que encontrou no Victoria Golf Resort & Spa mudou a experiência. Isto não é apenas um hotel — é um destino de verão.
Há lugares que não se limitam a ser visitados, são vividos como se fossem uma versão alternativa de nós próprios. O Victoria Golf Resort & Spa, em Vilamoura, encaixa nessa categoria com uma facilidade quase insolente. Não pelo excesso, mas pela forma como sabe exatamente onde se quer posicionar: entre o verde calculado dos campos de golfe e o brilho de quem já decidiu que o verão não é uma estação, é um estado de espírito.
E engana-se quem pensa que este lugar vive de uma ideia de conforto impossibilitado a crianças, aliás, este é um resort pensado para famílias — com kids club recentemente reaberto, programação pensada e espaço para todas as idades. Ao mesmo tempo, é um resort que recusa baixar o nível da experiência. A sensação é clara: aqui, o conceito “familiar” não significa abdicar do premium. Significa apenas alargar o público sem diluir a intenção.
E isso sente-se logo na forma como se habita o próprio resort.
A suite onde fiquei é quase um manifesto dessa filosofia. De um lado, o quarto, a banheira e a varanda, do outro, a sala, e mais uma banheira, tudo a comunicar entre si com uma fluidez quase cénica, como se o espaço tivesse sido desenhado para acompanhar o ritmo de quem lá fica — tal como em casa, mas com uma consciência clara de hotel. Lá fora, a varanda abre-se para uma piscina protagonista, não decorativa, mas narrativa: enquadra o estado de espírito e prolonga-se sobre os relvados de golfe numa vista totalmente desafogada.
É nesse contexto que o resto do resort ganha ainda mais coerência. Porque depois de uma manhã lenta na varanda ou de uma tarde dividida entre piscina e golfe, o dia desagua naturalmente num rooftop.
Sim, o novo centro de gravidade desta narrativa: o Botanic Terrace.
Inaugurado discretamente a 6 de junho, no segundo piso, este rooftop não tenta competir com nada — e é precisamente por isso que vence tudo à sua volta. É a extensão ao ar livre do Botanic Bar, mas com outra respiração: mais leve, menos contida, mais perigosa na forma como convida a ficar “só mais um copo”. Aqui, o tempo não se mede em horas, mas na vista, no pôr do sol
A golden hour algarvia não é um conceito — é uma coreografia que aprendi a dançar neste espaço, na companhia de uma Piña Colada translúcida. E é lá do alto, com vista sobre os campos do The Els Club Vilamoura, que tudo parece desenhado para desacelerar quem chega com as pressas lisboetas. Cocktails de assinatura, boa música e vinhos que não precisam de apresentação: o Botanic Terrace não inventa moda, afina desejo. É um espaço onde o final da tarde facilmente escorrega para a noite sem pedir permissão.
Há uma elegância cosmopolita que não se anuncia. Sente-se.
Mas seria um erro ficar apenas pelo rooftop.
No restaurante RIA, a ligação à Ria Formosa não é decorativa, é identidade do espaço. A carta de verão assinada pela Chef Anabela Francisco não tenta reinventar o Algarve; tenta traduzi-lo com precisão contemporânea. E consegue.
Posso dizer que as ostras da Ria Formosa com pérolas de maracujá trouxeram uma tensão doce-salgada à mesa e assim preparei o terreno para o que se seguia. Chega então à mesa a lula braseada com manteiga de maracujá, caviar, lima e arroz jasmim, um prato que entrou como uma provocação bem resolvida: há excesso, sim, mas é um excesso com uma intenção clara: não deixar nada no prato. E não há como ignorar o peixe do dia, fresco como se tivesse acabado de sair da água — porque quase saiu — e o camarão tigre, assumidamente protagonista desta noite, fecham a ideia de que aqui o mar não é tema: é presença assídua. Até mesmo quando falamos da carta de sushi aqui disponível.
E ainda assim, o melhor momento do Ria não está apenas no prato. Está na transição para a noite de verão, na simpatia dos funcionários e naquele jantar demorado à beira da piscina que sabe a férias e traz a sensação de que a refeição pode perfeitamente não terminar.
Mas termina-se — ou pelo menos faz-se uma pausa — porque há outro destino inevitável.
O regresso do Sensai
Aqui, a narrativa muda de continente sem sair do lugar. O menu do Chef Rui Viegas tem memória de viagem e intensidade de regresso. A Ásia não aparece como inspiração superficial, mas como linguagem estruturada. E o que me esperava numa noite (literalmente) omakase, em que confiamos no que o Chef traz à mesa deixou-me com vontade de voltar.
Mas vamos à mesa — sempre a mesa.
Começamos da melhor forma, com tempura de couve-flor com molho barbecue coreano que arrancou consenso num espaço onde o consenso não é fácil, já que não faltavam pessoas nesta prova. O ceviche de robalo foi simplesmente desarmante, daqueles pratos que suspendem a conversa por alguns segundos. Ainda provámos uma salada de rúcula, bacon, ovo em soja e abacate, que funcionou como equilíbrio necessário num jantar que nunca quis ser linear.
Mas o momento mais difícil de esquecer vem quando o sushi omakase entra em cena, fresco, leve e daqueles que nos fazem dizer de boca cheia "quem não gosta de sushi é porque nunca provou um assim". E entre pluma de porco preto, bife da pá e um pargo que praticamente se desfazia antes de chegar à boca, percebe-se o verdadeiro eixo desta experiência: controlo absoluto na liberdade criativa desta cozinha.
No fim desta experiência, apetecia regressar ao mesmo ponto de partida — o rooftop. Porque é lá que esta história começa a fazer sentido outra vez, com um copo na mão e a sensação ligeiramente perigosa de que o verão, aqui, pode muito bem durar mais do que devia.
Chegamos com a expectativa de mais uma estadia, mas saímos com vontade de não ir embora...
Não percas o comboio que te leva a tasca histórica onde ainda se come por 5 euros
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Rafaela Simões
- 29 jun, 18:38
