Muito se fala nos vinhos do Alentejo e do Douro, e porque não falar mais nos vinhos do Dão? Esta região vitivinícola tem muito para oferecer, desde os "grandes vinhos" de pequenos produtores até à oferta de enoturismo que pretende agradar a todos, mesmo àqueles que não apreciam um copo de vinho.
Levar o Dão às bocas de Portugal e do mundo é a missão do novo Presidente da Comissão Vitivinícola Regional do Dão, Manuel Pinheiro, que em entrevista à VERSA refere aqueles que são os seus objetivos para o mandato de três anos que acaba de começar.
Manuel deixa claro que os vinhos do Dão são autênticos, não precisam de imitar estilos, mas sim definir o que têm de único, e é essa uma das mensagens que quer passar nos próximos anos.
Depois desta entrevista, não temos dúvidas de que os vinhos do Dão vão estar no centro de conversas daqui em diante.
Quais são, na sua perspetiva, os principais desafios que o Dão enfrenta atualmente, tanto ao nível da produção como da afirmação no mercado nacional e internacional?
O Dão é uma região fabulosa, produz grandes vinhos e tem uma boa perceção de qualidade no mercado. Porém, tem uma baixa notoriedade em Portugal e muito baixa nos mercados externos, pelo que há que levar esta mensagem dos excelentes vinhos que produzimos até aos clientes. Por termos uma baixa rotação, somos uma região que tem atraído pouco investimento e onde a viticultura luta com dificuldades para se rentabilizar. Não tenho dúvidas que, ao reforçarmos a comunicação de um modo muito focado, a qualidade intrínseca dos vinhos nos vai ajudar a crescer com rapidez, permitindo uma maior e melhor afirmação da região nos mercados onde estamos presentes.
Nos últimos anos, os vinhos do Dão têm vivido uma clara evolução de estilo e de imagem. Que tendências acredita que irão marcar o futuro da região?
Concordo, a região tem evoluído muito. Creio que iremos produzir mais brancos, até porque a procura está aí e nós temos ótimas condições para isso. Defendo que devemos aproveitar e valorizar todas as nossas castas autóctones. Claro que temos a Touriga Nacional e a Encruzado, mas há muitíssima mais diversidade do que isso, e sobretudo no que aos lotes diz respeito, pois são a nossa bandeira e onde a enologia se pode expressar plenamente. Não precisamos de procurar imitar estilos, mas sim definir aquilo que os nossos vinhos têm de único.
Que ambição gostaria de concretizar até ao final do triénio 2026–2028 e como gostaria que o Dão fosse percecionado quando terminar este ciclo de presidência?
Gostaria (em três anos é difícil) que o Dão seja percebido como uma região com uma enorme variedade de pequenos produtores com grandes vinhos; um território com um enoturismo competitivo e de qualidade reconhecida e que, para estes produtores, a CVR Dão seja um local onde encontram mais apoio e zero burocracia.
O enoturismo tem ganhado cada vez mais peso na valorização das regiões vitivinícolas. Que papel pode, e deve, o Dão assumir neste eixo?
Curiosamente, apesar de estar mais distante do Porto e de Lisboa, o Dão tem uma das melhores ofertas de enoturismo do país. Produtores com hotéis integrados na vinha, restaurantes, ótimos programas de visita e experiências genuínas e diferenciadas. A apenas uma hora e meia de Lisboa ou do Porto, uma visita a Viseu e um passeio pela região é o programa perfeito. Julgo que é preciso manter um esforço e investir em alguma formação, mas, sobretudo, desenvolver novas ações, que tragam gente para estas quintas, pois o sucesso destas iniciativas irá chamar outras para este negócio. É importante deixar sempre claro que enoturismo não é vinho. Mesmo quem não aprecia vinho pode fazer uma caminhada na vinha, frequentar um restaurante vínico, onde a gastronomia é excelente, ou participar numa festa de vindimas.
Que oportunidades vê para os vinhos do Dão num contexto global cada vez mais competitivo e exigente, sobretudo junto dos consumidores mais jovens e dos mercados externos?
Claramente não é o caminho do preço ou dos volumes, mas sim o da diferenciação e de acrescentar valor. A produção de uva é cara no Dão, as parcelas são pequenas e há imensas dificuldades de mão de obra, o que não abona a nosso favor. Adicionalmente, a baixa de consumo mundial preocupa-nos, naturalmente, mas não é uma questão-chave, pois temos uma quota muito pequena. É em nichos de valor que nos temos de inscrever e posicionar, e estes não decrescem.
Num contexto de abrandamento do consumo de vinho em vários mercados, como pode o Dão reinventar a sua narrativa e reforçar a relevância dos seus vinhos junto do consumidor contemporâneo?
Um pouco como já referi anteriormente, o Dão pode destacar-se na produção de grandes vinhos. Não precisam de ser grandes volumes, deve procurar, sim, que os vinhos tenham sempre uma personalidade própria, sem ir buscar castas de outras regiões, por exemplo, e, complementarmente, tem de desenvolver o enoturismo como ferramenta de criação de marca e também, claro, de negócio direto. E sei que vamos conseguir, afinal nem sequer começamos do zero. A região tem uma longa história de grandes vinhos e vai divulgá-la cada vez mais, dentro e fora de portas.
