António Maçanita
Gourmet

Quem é o enólogo mais desejado? António Maçanita

Espalha a magia do vinho pelo país inteiro e os seus premiados rótulos estão nas mesas mais cosmopolitas, onde já se falam várias línguas. Do Alentejo ao Douro, dos Açores à Madeira, há talento de António Maçanita em alguns dos mais luminosos e carismáticos néctares made in Portugal - e que contam a história cultural do país. Fomos saber a sua.

No inverno de 2018, o chef Ljubomir Stanisic juntou-o à nossa reportagem no Pico, iam fazer um vinho juntos e António Maçanita começava a revolucionar aquela terra digna de um quadro de Turner, ao cuidar das suas vinhas retorcidamente belas e aninhadas num terreno negro vulcânico. Ao jantar, falava do vinho como um organismo vivo, entre as suas histórias várias e as curiosidades das ilhas de onde vem o seu apelido invulgar. E atirava os nossos copos meio vazios para o lava-loiças para. Sempre muito entusiasmado, dar a provar aos convivas o seu vinho seguinte. E o que parecia uma heresia tornou-se um crescendo de descobertas, uma alquimia de medidas e aromas que voam numa cintilação de notas frescas, minerais e salgadas da rara casta Terrantez do Pico, e do delicioso Arinto. A mesa era longa e cheia de comensais, e lá fora rodeava-nos apenas a pedra vulcânica e o mar ao fundo. Meses depois, António Maçanita era nomeado enólogo do ano e, chegados a 2022, nunca parou de receber prémios, sendo o mais recente para o seu Vinha dos Utras.

Filho de pai açoriano e mãe alentejana, as duas regiões onde deu os primeiros passos no vinho, e onde nasce, primeiro, a adega Fita Preta, em Évora, e depois a Azores Wine Company, na ilha do Pico, nos Açores, com dois sócios, Filipe Rocha e Paulo Machado. Em 2011, nasceram os seus rótulos homónimos de castas do Douro, trabalhadas com a sua irmã Joana Maçanita e, mais recentemente, o Caracol dos Profetas 2020, inventado em Porto Santo, uma casta e numa ilha às quais já ninguém ligava, e que tivemos a sorte de provar no reencontro para esta conversa. (Assim como também adorámos o seu Os Paulistas, chão dos Eremitas, 2019, e o Canada do Monte 2018).  

Sem medo, e com num certo espírito punk, António Maçanita é curioso, carismático, com tanto de espírito de missão como de partilha, e contagia todos os que o rodeiam com a sua energia e entusiamo e perfeccionismo. Atravessa o mapa de Portugal inteiro, soma e segue e ninguém o agarra.

Foste Enólogo do ano 2018, a Fita Preta acaba de ganhar o prémio de produtor do ano, António Maçanita deixou de ser a promessa e passou a ser o nome mais reconhecido do mundo do vinho?

A pessoa vai fazendo o seu trabalho, mas estamos no meio do campo, temos o feedback do restaurante, e às vezes chegávamos a esses eventos e diziam-nos que íamos ganhar prémios esse ano… (risos) Hoje sinto que já não é um potencial, que as pessoas já reconhecem, sim.

Estava tudo por fazer e desbravaste muito caminho. E os nomes que dás aos vinhos também ajudam.

Sim, acabou por acontecer convidarem-me para uma coisa que nem é do meu agrado e que é para dar formação em marketing de vinhos, e eu: what?  Acho que a ideia é fazer qualquer coisa que entendemos que tem valor intrínseco e chamá-la, (e já vou aos nomes engraçados e provocadores) que são o arinto dos Açores, o verdelho original, o branco de talha, o branco de indígenas, o tinto castelão, quer dizer, não é preciso nenhum génio do marketing para fazer isto. Depois, a provocação vem depois com a Touriga vai nua ou a Baga ao sol que já são mensagens subliminares e que vão transmitindo o que o vinho é, mas o que importa é o valor intrínseco do que o vinho é, e o processo é mais do produto para o mercado do que do mercado para o produto.

Crias primeiro pelo amor ao vinho.

Ou seja, é muito mais ter o privilégio. (sorri) Diria que 2004 a 2010 é uma fase de construir o meu negócio, oiço muito isto: “O vinho não é arte, mas pelo menos será expressão artística”. Os primeiros cinco anos foi a copiar, eu aprendi nos sítios e estava a aplicar técnicas que aprendi lá fora e estava a tentar pô-las no vinho e funcionaram. E quando provo os meus vinhos de 2004 penso: “Eu fiz isto com vinte e tal anos?” Estão bem feitos, aguentam-se, tão estáveis. Os locais onde aprendi eram bons, e as vinhas que o Dave [o consultor e viticultor inglês, David Booth] escolheu eram boas, por isso conseguimos fazer bons vinhos.

A minha mãe diz que a História se conta depois dela acontecer, encontramos uma narrativa para uma coisa que não foi tão coerente. Olhando para trás o que é interessante é que, em 2010, há uma epifania, uma mudança, que teve a ver com a estabilidade do negócio, há um bocadinho de espaço, então faço o Branco de talha, que é o primeiro vinho de talha engarrafado branco em Portugal, faço o Terrantez do Pico, que é a recuperação da casta, e faço o Tinto castelão  - vamos conversar muito sobre este vinho no futuro porque pode ser uma casta que pode trazer algum equilíbrio ao Alentejo - faço o Branco de indígenas, hoje todos os nossos brancos são em fermentações espontâneas, foi um grande tema há cinco anos, mas há dez anos estava a experimentar os indígenas brancos, os tintos já eram todos indígenas. E quero experimentar, não quero ficar preso ao que fizemos bem, quero aprender, também em conversa com o nosso consumidor. Neste processo ensaísta, fomos fazendo tanta produção que tenho imensos vinhos que não lancei ou porque não ficaram bem ou não eram relevantes.

É um pouco como as telas dos artistas ou dos escritores, podes sempre voltar a eles mais tarde .

É verdade. E quando as pessoas me perguntam: “Qual é o teu melhor vinho?” Já tentei isso há tanto tempo!

Porque está sempre a mudar, não é? Foi o teu vinho preferido naquela altura.

Exacto! (risos) E eu estou muito ligado, como é óbvio, ao que estou a descobrir e a descalçar, a trazer de novo. Este ano para mim foi o ano do Porto Santo, o ano em que começas de novo, não tens adega, as pessoas não acreditam em ti, os produtores de uva, e de vinho também, desconfiam…

Adega da Fita Preta, Évora 

Quando é que o pequeno António decide que quer fazer vinho?

Há uma ligação muito ténue ao vinho, o meu pai é professor universitário de Química, a minha mãe é licenciada em História, e como um bom português, sempre vinho à mesa.

Curiosamente, tens um pouco desses dois lados: da alquimia e da História dos lugares, a minúcia, do laboratório e uma forma de falar sobre os vinhos, que é falar sobre as regiões e as pessoas.

Diria que comecei como um técnico, preocupado com tudo o que é técnico, na vinha e na adega, tudo ao milímetro, e hoje em dia é importante dominar o técnico para saber o que não é para fazer. Tenho mais horror próprio, sobre o que faço, se alguém descobre como é que eu fiz, se percebeu, então falhei porque não estou a mostrar o sítio.

A ideia de dominar a técnica para a ausência da técnica, para as coisas serem intemporais e não estar a fazer uma coisa que é muito interessante na altura, mas... Tem de ser a essência e é preciso resistir. Quer dizer, não pode ser a versão que eu entendo que é a melhor, mas a versão que eu entendo que é mais o sítio, que é mais única.

Uma ostra já é perfeita, mas já provei uma ou outra que levaram um toque sem nunca perderem de onde vêm. Dou o exemplo da ostra porque é mesmo para não mexer, mas podemos pegar num pedaço de peixe, e alguém tem de cortar: que parte, aonde e com que espessura? É esse o desafio.

Vivias em Lisboa, agora mudaste-te para o Alentejo, estás a gostar?

Tem de ser equilibrado, mas estive sempre a viver em Lisboa e comecei a preocupar-me com outros temas com que não me preocupava. O ficar significa que vamos vendo mais coisas. Não sei se é bom ou mau para o negócio, mas é super interessante para os vinhos e para as vinhas e para a equipa.

Estar no campo desenvolve-te o instinto?

Estávamos a falar da técnica, e agora a estética. A estética é influenciada por mundo, e esse mundo está nas cidades, estás nas viagens, está em aprender com os outros, com outros produtores ou os feedbacks dos sommeliers, que nos vão dando contexto estético. E têm o risco de nos influenciar demais. Eu era de cidade, o que era uma vantagem porque não era do meio rural e uma desvantagem porque não era do meio rural, e de muito viajar, fiz muitos países, muitos restaurantes, muitos sommeliers, muito feedbacks e sempre fui muito disponível para fazer isto [bebíamos um Borgonha clássico], para não beber o que é meu. Para ser impressionado ou desimpressionado. E é um equilíbrio que se faz sem arrogância, é para sabermos. Como ir a um restaurante, eu gosto de ir almoçar à Tasca da Esquina, gosto do ambiente, da definição estética, é muito pura e simples, trabalha com muitos sabores de Portugal, do Brasil, de Cabo Verde, tem muita coisa misturada.

E donde te vem a queda para o vinho?

Diria que venho de uma família “anti-negócio”, mas ao mesmo tempo o meu pai também sempre disse: “Não procures um emprego, procura um trabalho.” E sem caminho nenhum definido, tirando as minhas paixões que eram o surf e a caça submarina, os meus hobbies, por assim dizer, e eu queria ir para Biologia Marinha. E inscrevi-me, mas depois aconselharam-me a ir para engenharia ou Agronomia e assim foi e inscrevi-me, mas enganei-me nos códigos, é verdade! (risos) E fui para engenharia agro-industrial no ISA, e paniquei um bocadinho no início porque a maioria das pessoas que estavam lá tinham alguma ligação à terra, ao campo, e eu zero, não é? E mais uma vez, os nossos problemas são os nossos talentos: como é que eu me enganei e vim parar ao curso de que eu precisava, de transformação e não de agricultura? E tive uma altura que andei muito interessado com leites, e entusiasmado com queijos, também pela minha ligação aos Açores, e visitei imensas fábricas…

O teu pai é dos Açores, certo?

Sim, o meu pai é de São Miguel, tenho uma grande família nos Açores, e a minha mãe é de Montemor, muito perto da adega [Fita Preta], portanto. E para quem está na cidade há uma ou duas gerações… Eu sempre gostei muito de Lisboa, mas sempre senti que não era daqui. Quando chego aos Açores, sinto que sou de lá, tenho lá os meus primos. “O Maçanita? Ah, sim, é o que tem a loja ali! É também o do oculista Mendonça!” Um meio pequeno dá mais visibilidade, nós existimos e não aparecemos agora. E essa ideia de voltar à terra, que é uma expressão de que cada vez gosto mais, e que é a que mais se aproxima de terroir. Não há sinónimo mundialmente para terroir, ou seja, que diz um local, um tipo de solo, um tipo de clima e um tipo de exposição, mas agregado sempre à cultura, a uma forma de fazer, a um tipo de castas. Terroir no sentido do vinho e da identidade do local é a mesma coisa que ir para a terra, que é uma localização, sem dúvida, com os seus alimentos e ingredientes, cultura e música, mas que nos transporta para um sítio. E eu sinto esta vontade de ir para a terra no Pico, como nos Açores, de uma forma muito diferente do que tenho com outras regiões. (E chega um sashimi de lírio) Lírio, é o meu peixe preferido. [é dos Açores, com o qual bebemos o seu delicioso vinho do Pico]

E como é que tudo aconteceu depois de tirares o curso?

No segundo ano de faculdade entro numa cadeira que é viticultura, mais prática, mais mão na massa, poda, e eu sempre fui bom a Ciência, mas senti, pela primeira vez, que me entusiasmei muito com a viticultura, nesta que é uma área da Biologia que não é controlável totalmente - é mais entender, mas não é linear, não há uma fórmula clínica, é um desacerto, e depende do ano e depende da chuva. Gostei muito do professor Rogério de Castro, muito inspirador, aqueles professores que enchem uma sala, chegou a convidar-me para fazer parte da sua equipa de viticultura, o qual gentilmente recusei, exatamente porque não queria fazer esse percurso académico. Há um viticultor, de quem eu fui tradutor em Portugal durante uns anos, que é o Richard Smart, e eu fazia-lhe perguntas e ele dizia: “António, you need to focus on the 30% you understand.” E é brutal, porque depois de compreenderes esses 30 % podes preocupar-te com o restante.

E começaste nos Açores.

No ano seguinte, 2000, tento enxertar uma vinha nos Açores, na ilha de São Miguel, convenço o Tito, que é o Frederico Vilar Gomes, outro enólogo da praça, e o João Palhinha, que era do Esporão e agora trabalha no Brasil. O meu tio Carlos Maçanita comprou um terreno que era uma escarpa, em cima do mar, que só dá para aceder a pé ou de barco, e tinha uma vinha na Rocha da Relva, um sítio completamente espetacular. (E se eu tiver um desígnio de uma coisa que eu quero fazer ainda, é regressar a este sítio extremo, é pensar no Douro em cima do mar, em termos de traço.) E enxertámos uma vinha de híbridos, de vinho de cheiro, em vinífera, cortámos umas varas na faculdade, pedimos lá ao feitor, fizemos uma enxertia, um trabalhão, debaixo de chuva dias a cortar troncos para enxertar vários galhos, etc, e uma tempestade de mar queimou praticamente tudo… Sou espiritual e o vinho é uma forma de Deus, ou de o planeta Terra, consoante as crenças de cada um, de dizer: “Volta quando estiveres pronto”. Eu estava a plantar castas-asneiras só (risos). “Se vens para aqui plantar Cabernet e Merlot, se calhar, vai lá aprender um bocadinho e depois volta.” Curiosamente são 10 anos que passam desde o primeiro Terrantez do Pico. Dez anos depois de fazer Califórnia, de fazer Austrália, de começar o meu projeto no Alentejo e olhando agora para trás, eu queria fazer alguma coisa lá, tinha vontade, mas não estava preparado, e tive a felicidade de ter havido esse problema.

E dez anos depois nasce a Azores Wine Company, depois da adega da Fita Preta, no Alentejo.

Sim, depois em 2007/8, o Filipe Rocha convida-me para dar um workshop no wine & fish in Azores, foi super giro, ele não fazia ideia de que eu era descendente de açorianos, o Fausto Airoldi dava lá formação e na altura eles tinham o [restaurante] Pragma e eu ajudava, uma casualidade também, a fazer a carta do Pragma e do Spot, onde conheço o Nuno Faria [100 Maneiras]. Para mim o Pragma continua a ser das melhores experiências, completamente surreal, e being early is the same as being wrong, foi muito cedo para o mercado, mudávamos a degustação todos os 15 dias e foi uma fase espetacular de aprendizagem sobre comida e vinho, um mundo onde nunca tinha mergulhado. E fez-me entender o vinho à mesa, para que serve o vinho? Como é que casa? A gordura e a acidez, a adstringência e a proteína.

O vinho que te lançou para o grande público foi o Sexy, Alentejo, Fita Preta?

Sim, sim, talvez. As primeiras reportagens são sobre o Preta, uma reportagem do Público, é o nosso vinho de topo e continua a ser. O primeiro vinho que temos, que é de 2004, ganhou o trophée no International Wine Challenge, foi a segunda vez que esse prémio reconheceu o Alentejo (e a primeira vez deu à Malhadinha quando eu lá estava, foi engraçado). O Sexy eu diria que é o vinho mais rupturante e é o que explica melhor a nossa mentalidade, pelo visual, pelo nome.

António Maçanita na Adega da Fita Preta, Évora. 

E porque acabaste por escolher o Alentejo, onde tudo arrancou depois das tuas viagens?

Alentejo, mãe. É chegar aterrado na Califórnia, de um projeto que é o Merryvale Vineyards, onde estive quatro meses, em 2001, no tempo da faculdade, foi o sétimo melhor vinho do mundo na Wine Spectator, o de 97. Voltei a Portugal na vindima seguinte para trabalhar com um enólogo que é o Charles Thomas, que tinha ficado numa adega que é a Rudd, dos donos do Dean and Deluca. Conheci-o e disse: “Eu quero trabalhar com este enólogo”. E não é só as pessoas serem explicativas e disponíveis é, como o professor Rogério, terem esse dom da partilha de conhecimento, da resposta em provocação, não te dão a resposta inteira, dão-te uma nova pergunta enquanto não se pensar no todo.

E a Califórnia foi importante para ti?

Foi a certeza. 

Eu tinha alguma vontade deste tema da vinha, está ligado a cultura e história, é Biologia, não dominamos completamente, é uma coisa infinita. Ainda não estava na versão estética, não tinha essa sensibilidade, nem essa formação, na Califórnia, com 400 estagiários do mundo inteiro, pessoas que sabiam muito mais, outras que sabiam muito menos, foi brutal, senti mesmo: é isto, é infinito, nunca se vai saber tudo sobre vinho e ninguém está certo.

E assim começaste.

No processo, a minha ideia do que era um grande vinho era mais centrada nos tintos, e fiz um business plan, o preço das uvas, o preço das adegas, porque não tinha dinheiro para ter uma adega ou plantar uma vinha, então a única solução era comprar uva e mesmo assim tinha de convencer a emprestarem-me dinheiro. Por isso, começou a ficar claro na minha cabeça que queria arrancar e transformar, o que me dá vontade de rir é a confiança que eu tinha (risos).

Mas a confiança da juventude faz toda a diferença, até um misto de inconsciência…

É isso, um misto inconsciência e ignorância e um bocadinho de autismo. (risos) No sentido, ‘se é para fazer isto, eu consigo fazer isto” e foi essa confiança que permitiu ao David acreditar em mim e depois associar-se e fazer o nosso primeiro vinho em 2004, que é um grande vinho. E hoje em dia sei que tive tanta sorte: em ter conhecido o David, em ter ido para a vinha certa, óbvio que houve muito esforço. Sempre tive uma dinâmica de avançar e vais encontrando pessoas.

Esse entusiasmo é muito contagiante, não é comum os enólogos serem tão próximos das pessoas.

Vamos pôr isto num paralelismo entre o vinho e cozinha, é básico, mas é a coisa mais complexa sendo básica. Toda a gente sabe cozinhar, mas tens que ir ao mercado comprar o peixe, tens de conhecer a senhora, fazer o corte certo, tens de voltar aos básicos. Fazer vinho também é básico, é a mesma coisa, é aquela gota de limão no prato. O vinho é engarrafado, é calmo e sem a pressão do consumidor, a cozinha é mais exigente, porque tens o timing.

Gostas de cozinhar?

Gosto, na grelha estou sempre à vontade, agora no resto falta-me sempre qualquer coisa (risos:  ou me falta a técnica ou o produto ou o equipamento. O meu pai é grande fã de mariscadas e costumo fazer sapateira ou ameijoas ou mexilhões, aqueles clássicos portugueses.

No Instagram percebe-se que passas a vida a beber, claro, mas também a comer. A comida leva-te a novos sítios?

Leva-me neste sentido de não nos deslumbrarmos connosco próprios. Quando peço para me fazerem um vinho, não quer que se faça o que eu quero, quero descobrir, quero ficar desconfortável ou dizer que não vale a pena. O que estamos a fazer é efémero. A desvantagem da cozinha é que é no momento, não pode ser agilizada daqui a 20 anos. O vinho, digo sempre, é o meu objetivo de vida. Aos meus filhos de 7, 4 e agora 8 meses, eu digo o que acho que tem de ser: os meus vinhos têm de estar em melhor forma do que os dos vizinhos (risos), ter envelhecido melhor. No fundo, o que estamos a fazer é autenticidade, recuperar e reabilitar a História, não há verdade absoluta, mas vamo-nos aproximando dela. 

O que é que me dá arrepio nas costas? Receber uma chamada de senhor nos seus 70 anos, que ligou para a adega várias vezes a chamar pelo engenheiro António Maçanita e tal e depois acabei por lhe ligar, “Aaah nunca me atende e tal!” (risos) Depois diz-me: “Eu sou do Alentejo e estes eram vinhos que o meu avô fazia.” Eu fiquei… quase me veio uma lágrima. 

E tinha de ser, porque eram essas as vinhas, não se pode mudar o que é.

Entre os sócios Filipe Rocha e Paulo Machado na Azores Wine Company, na ilha do Pico, Açores.

Dos Alentejo para os Açores foi um percurso umbilical, nada pensado, como quase todas as vidas interessantes.

Nada. Eu tenho estado muito com o meu pai e ele diz: “A minha vida foi toda muito ao acaso” E eu sinto a mesma coisa. Há uma vontade de fazer mas não tinha projetado nem onde nem com quem. Se pudermos conspirar, fui a um almoço, através de um amigo da minha mãe, em casa do Tomás Lima Mayer onde conheci o David. Podemos dizer que a minha mãe me empurrou para o Alentejo (risos). E a partir daí comecei a acompanhar o David no Alentejo. E, repara eu até aí tinha feito os meus estudos e não tinha nenhuma ligação ao meio e tinha de encontrar uma alma como o David, que era um viajante e estava de passagem no Alentejo,  

Estás em não sei quantos sítios de Portugal ao mesmo tempo: Fita Preta, Azores Wine Company, Douro, agora Madeira – criaste um vinho no Porto Santo!

A Madeira é quase um grito do Ipiranga do Covid, estava a ficar sufocado, sempre vivi em Lisboa, tínhamos decidido, pré-Covid, ir para o Alentejo, mas de repente ficar bloqueado no Alentejo, não te podes expandir. E comecei a sentir; a falar com o Nuno (Faria, sócio e diretor F&B do 100 Maneiras] que estava lá e vamos aí.

Os vinhos de Porto Santo são inacreditáveis, e foi só fé. A minha equipa fica sempre assustada porque eu compro as vinhas por feeling, isto tem de ser do caraças! Tudo bem, mas são 20 hectares (risos) Eu sei! São bonsais, são vinhas com 50 anos, 80 anos, com os braços esticados, sofridos, encruzados, só pode sair daqui qualquer coisa espetacular! 

O Listrão dos Profetas, que foi o primeiro que lançámos é a melhor pontuação… Há três vinhos, o Vinha Centenária que tem 95 pontos, o Canada do Monte, que provámos agora, e que tem 95 pontos, e o Listrão, o primeiro vinho do Porto Santo, no topo do que já se pontuou para Portugal. E temos de ser muito humildes nisto, é como encontrar uma ostra e ir ao concurso das ostras e: “Oh António, é o maior!” Mas eu só vi que havia ostras!

Mas o faro é teu, e deitas todos os preconceitos que ainda subsistem em relação ao vinho, crias valor.

Ah isso sem dúvida nenhuma, há uma sensação dos locais, que são mesmo muito especiais, tu sentes, e que não tens de tentar dobrá-los, e isto se calhar pode ser o erro que é querer transformar uma sardinha num linguado. Quando cheguei ao Porto Santo fiquei super entusiasmado, mas quando fui ao Funchal, fiquei ainda mais entusiasmado, falei com uma pessoa de que gosto muito: “Vinho de Porto Santo? Isso não faz sentido nenhum, é o vinho da bebedeira.” E eu reencontrei-me, há 10 anos, nos Açores, com a mesma resistência local, intrínseca, porque é aí que podes criar mudança. Se as uvas nos Açores custavam 70 cêntimos quando chegámos, depois chegaram quase aos cinco euros.

É extraordinário o que fazes com vinhos e regiões considerados menores ou castas que já ninguém liga ou nunca ligou, és um garimpeiro.

Sim, e sinto um drive para isso, para o underdog, o que sinto quando estou com o André Magalhães, na Taberna na rua das Flores… Então e se eu só tivesse este peixe, o que faria? É claro que me dá muito mais gozo onde eu puder contribuir. Nos Açores, passar de 70 cêntimos para 4 ou 5 euros é uma revolução económica para um agricultor, eu ter chegado Porto Santo e ter decidido fazer o meu vinho lá tem um impacto na região. As pessoas estão todas a plantar mais. Eu digo sempre ao Nuno, que está a fazer isto comigo: “Podemos não fazer vinho nenhum para o ano que já fizemos dos projetos mais giros das nossas vidas.” E já teríamos contribuído. Entusiasmo-me mais com isto do que a fazer o vinho A, B ou C.

A Azores Wine Company, entre o mar e a montanha do Pico.

E ajudas os outros produtores, o que ninguém faz, ainda mais numa era cada vez mais individualista.

Óbvio que estás num local, há sempre a resistência com quem chega, porque já está no local, e é preciso não levar a mal, não ficar ofendido com essa resistência. Ninguém gosta que se venha dizer: “É assim que se deve fazer”. Eu não acredito numa região boa de vinhos com apenas um produtor, não acredito. É a mesma coisa com a minha equipa, ou ficam muito bons e têm um papel importante ou voem para outro sítio. Há sempre uma parte de nós que está preocupada com a competição e com o conflito e com a pequenez, há uma parte de nós, mas falo comigo próprio e digo: isso não é bom, nem é o mais importante. O mais importante é conseguirmos mudar o paradigma. O vinho dos Açores, é importante que as pessoas saibam fazer vinho, é a única forma de imortalizar. A coisa mais triste, quase me dá aflição, é que alguma vez o Pico voltasse onde já esteve. O mais legado que posso ter, não é a empresa, as empresas vão e vêm, é o vinho do Pico andar sempre para a frente e isso faz-se com pessoas, como a Cátia Laranjo, o André Ribeiro, o Lucas, têm menos 10 outros 20 anos do que eu, eu quero mesmo que tenham sucesso porque são eles o futuro. A minha agenda foi só pôr os Açores e o Pico no mundo, é melhorar, é mesmo uma preocupação.  

E como és a criar, um solitário alquimista?

Não, eu demoro imenso tempo, sou um procrastinador nato. Eu até ter que engarrafar, não engarrafo. E a equipa ri-se porque até estar engarrafado não está feito. É um processo, o momento da ansiedade total é o momento em que tomei a decisão de que o vinho vai entrar na garrafa. (risos) É uma responsabilidade e o que prometemos. Se ele gostou do Castelão de 2018, eu tenho de dar-lhe essa memória e comigo tenho a responsabilidade de manter pontos, mas continuar a evoluir.

A minha responsabilidade é contribuir para não ir parar a um sítio das coisas de que eu não gosto, os vinhos de que eu não gosto, que não tenho prazer, são os vinhos onde eu não vejo uma pessoa por trás. A vida é muito curta para estar a beber um vinho de alguém que fez esse vinho porque acha que o consumidor quer esse vinho. Prefiro beber um vinho de uma pessoa que me diga: faço este vinho porque curto este vinho.

O que me entusiasma num produtor é ser uma ideia original, ser uma ideia e uma convicção dele. Pode nem ser o meu gosto, mas entusiasma-me porque está a fazer uma coisa em que acredita e está num caminho próprio.

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