Quinta da Moscadinha
Quinta da Moscadinha | Fotografia: D.R.
Gourmet

Da maçã esquecida às sidras de autor: a revolução da Quinta da Moscadinha

Num mercado dominado por vinhos em Portugal, a Quinta da Moscadinha traz uma inovadora proposta: produção de sidras segundo métodos enológicos. Fomos saber tudo com o produtor Márcio Nobrega.

Conhece a Quinta da Moscadinha e o renascimento das sidras de maçã

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Num país onde o vinho domina a cultura e a mesa, a maçã esteve durante décadas em segundo plano. Durante grande parte do século XX, a produção de sidra foi mesmo desincentivada para proteger o setor vitivinícola, levando mesmo ao desaparecimento de muitos pomares, mas Márcio Nóbrega, proprietário da Quinta da Moscadinha, quer mudar essa realidade. 

Ao recuperar uma propriedade na Camacha, descobriu que a localidade era conhecida como o antigo "pomar da ilha", uma tradição que decidiu valorizar através da produção de sidras segundo métodos enológicos, aplicando técnicas semelhantes às do vinho, mas utilizando maçã em vez de uva. O resultado são bebidas mais complexas, gastronómicas e elegantes.

As novas referências reforçam essa aposta. A Ancestrale recupera métodos tradicionais de produção; a Altitude destaca maçãs cultivadas nas zonas mais altas da Madeira; e a Aguardente de Maçã, envelhecida durante três anos em barrica, amplia o universo da maçã para além da sidra.

Com uma produção limitada a cerca de 50 mil garrafas por ano, a procura supera atualmente a capacidade da Quinta. O futuro? Não faltam projetos, conforme conta em entrevista à VERSA o produtor Márcio Nobrega, proprietário da Quinta da Moscadinha.

Num país onde a uva é símbolo nacional pelo vinho, em que lugar se posiciona a maçã?

Portugal é, como todos sabemos, um país produtor de vinho e internacionalmente reconhecido como tal.

O que nem todos sabem é que a maçã e, consequentemente, a sidra, também fazem parte da nossa história agrícola e tiveram um papel relevante na relação com o vinho. E esta importância foi de tal forma relevante, que levou a que o governo proibisse a produção de sidra em Portugal, para proteger o sector vinícola nacional. Quando a filoxera atinge o país, no século XIX, começou-se a misturar maçã com uva, dando origem a um vinho adulterado. Isto aconteceu principalmente na região norte do país, pois era onde se cultivava e ainda hoje se cultiva, muita maçã. Então, entre os anos 50 e 60 foi proibido produzir “vinho de maçã” em Portugal, como medida de proteção do vinho, e inclusive o governo pagou aos agricultores para abaterem os seus pomares e plantarem novas vinhas. A expansão do vinhedo duriense, que termina em 1957, acontece com a proibição de produção do “vinho de maçã”.

Respondendo então à questão, a maçã sempre esteve presente na nossa história, mas agora ganha mais notoriedade e espaço. Hoje produzem-se sidras de grande qualidade, com perfil gastronómico e de teor alcoólico mais baixo, de acordo com as preferências dos novos consumidores.

A Quinta da Moscadinha sempre quis fazer sidra e nunca outra bebida?

Não. O nome da Quinta deriva do licor de ervas “Moscadinha”, uma receita de família cuja produção e comercialização tiveram início antes mesmo da abertura da propriedade como unidade de turismo rural. Mais tarde, com a evolução do projeto ‘Quinta da Moscadinha’ e devido à sua localização (freguesia da Camacha), o foco foi direcionado para a sidra.

Com o desenvolvimento do projeto, fomos rapidamente percebendo a verdadeira importância que a maçã e a sidra tinham para esta localidade e para a própria ilha.

Quando adquirimos a propriedade, esta incluía um pomar antigo e abandonado, que acabou por ser abatido para dar lugar às obras de recuperação. Alguns dias depois, apercebi-me de que os nossos vizinhos tinham ficado incomodados com o desaparecimento do pomar e procurei perceber o motivo. Foi então que descobri que, nesta zona, existiram em tempos grandes áreas de cultivo de macieiras, entretanto desaparecidas, e que aquele era já um dos últimos pomares resistentes.

Descobri também que a Camacha era antigamente conhecida como o “pomar da ilha”, pela importância que a produção de fruta tinha nesta região.

Foi a partir desse momento que decidimos direcionar o nosso trabalho para a valorização da maçã e para a produção de sidra. E tem sido uma aposta ganha.

Muitos ainda associam a sidra a uma espécie de cerveja. O são as sidras da Quinta da Moscadinha?

Sim, é verdade. As sidras na sua maioria são elaboradas pela “via cervejeira”, ao contrário das nossas que são elaboradas pela “via enológica”, ou seja, aplicamos todas as técnicas enológicas, mas em vez de usarmos uvas, usamos maçãs.

O que é, afinal, uma sidra espumante?

Uma sidra espumante é produzida de forma muito semelhante espumante português. O processo é o mesmo, ou seja, com dupla fermentação em garrafa e estágio mínimo de 12 meses na mesma, para a formação da bolha e desenvolvimento dos aromas que tanto apreciamos num espumante.

E uma sidra fortificada e uma aguardente de maçã da Madeira?

Na sidra fortificada, usamos a mesma técnica de produção do vinho Madeira ou vinho do Porto, que consiste na adição de aguardente vínica e estágio em barrica por um período mínimo de 3 anos. A aguardente de maçã é produzida de forma semelhante a outras aguardentes, tendo como base a maçã como matéria-prima. A nossa, em particular, estagia durante três anos em barrica antes de ser engarrafada.

Quais os principais desafios para que as sidras da Quinta da Moscadinha entrem no mercado?

As Sidras da Moscadinha estão presentes no mercado há quatro anos e, neste momento, o nosso principal desafio é a limitação da capacidade produtiva. Atualmente, atingimos o nosso limite de produção, de 50 mil garrafas anuais, e o mercado esgota rapidamente a disponibilidade.

O nosso principal desafio é manter a notoriedade face ao volume de produção, tendo em conta que o custo de estar presente é alto, para um produtor tão recente e tão pequeno.

Quais os próximos passos que querem dar?

O próximo grande passo é a construção de uma nova adega, que se prevê iniciar em 2027 e que nos permitirá aumentar a nossa capacidade de produção.

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