Quinta dos Carvalhais
Quinta dos Carvalhais | Fotografia: D.R.
Gourmet

Quinta dos Carvalhais: “Costumamos dizer, com muito orgulho, que estes vinhos são o 'puro Dão'"

Bem-vindos à Quinta dos Carvalhais e a uma viagem pelo presente e pelo futuro de uma das casas mais emblemáticas do Dão. Quem nos guia é a enóloga Beatriz Cabral de Almeida.

Quinta dos Carvalhais: o puro Dão em garrafa

Vinho do Porto Sandeman Founder’s Reserve com imagem assinada pelo UIVO

Há lugares onde o vinho nasce não só da terra, como da curiosidade, da experimentação e da vontade constante de desafiar o tempo. A Quinta dos Carvalhais, marca da Sogrape, é um desses casos. Situada no coração do Dão, protegida por um verdadeiro "ninho entre serras", a propriedade tornou-se uma referência da região ao conjugar tradição, inovação e um profundo respeito pelo terroir.

Ao longo de mais de seis décadas, a Quinta dos Carvalhais ajudou a redefinir a imagem dos vinhos do Dão, apostando em projetos pioneiros, como o primeiro Encruzado monovarietal da região, e, mais recentemente, em edições especiais que exploram todo o potencial das castas e dos microclimas da propriedade. 

À frente da enologia desde 2012 está Beatriz Cabral de Almeida, que tem sido uma das protagonistas desta evolução. Em entrevista à VERSA, a enóloga da Quinta dos Carvalhais fala sobre a história e a visão da quinta, explica como a natureza influencia cada vinho, revela porque optam por não recorrer à irrigação das vinhas adultas e partilha as surpresas que ainda hoje o Dão continua a oferecer.

Beatriz Cabral de Almeida, Enóloga na Quinta dos Carvalhais

A história da Quinta dos Carvalhais já é longa. Como contaria esse percurso desde o sonho inicial até à afirmação dos vinhos do Dão como referência internacional?

Embora a minha história na Quinta dos Carvalhais tenha começado em 2012, o que me motiva todos os dias neste projeto nasceu em 1942, com o fundador da Sogrape, Fernando Van Zeller Guedes, ao mostrar ao mundo a qualidade e a elegância dos vinhos portugueses. Esse compromisso trouxe a Sogrape até à região do Dão em 1957. Mas o verdadeiro momento de viragem na região aconteceu em 1988, com a aquisição da Quinta dos Carvalhais. Foi um projeto pioneiro que revolucionou e revitalizou a região. Em 1990, dotámos a propriedade de uma adega moderna desenhada para o fluxo gravitacional, protegendo a integridade das uvas. Em 1992, lançámos o primeiro monovarietal de Encruzado da região, o que definiu um novo padrão de qualidade para os brancos do Dão. Quando assumi a enologia da propriedade, percebi que o meu trabalho passaria por potenciar a herança experimentalista. Atualmente, a nossa visão é consolidar a marca como uma adega boutique de referência internacional, capaz de espelhar a enorme diversidade e os microclimas do Dão. Assim, focamo-nos em criar vinhos sofisticados, com a acidez típica da região e elevado potencial de guarda, posicionando o Dão no segmento de fine dining global através de uma viticultura sustentável.

Tendo em conta a localização da quinta, um “ninho entre serras” com microclimas diversos, qual dos vinhos já lançados foi a maior surpresa até hoje?

A analogia do "ninho" faz todo o sentido. Estamos rodeados pelas serras da Estrela, Caramulo, Buçaco e Açor, que protegem as vinhas dos ventos continentais quentes a leste e das frentes húmidas do Atlântico a oeste. Além disso, dos nossos 100 hectares, cerca de metade são compostos por uma floresta autóctone, repleta de pinheiros, eucaliptos, estevas, carvalhos e castanheiros. Esta biodiversidade liberta aromas para o ar que se transferem para as uvas e moldam o perfil dos nossos vinhos. Além disso, as nossas vinhas estão distribuídas de forma fragmentada pela propriedade. O Encruzado, por exemplo, está plantado em parcelas perto do lago, noutras encostadas à floresta, em zonas de maior altitude e em pequenas depressões mais baixas. Embora o solo seja predominantemente granítico, a textura varia muito entre o arenoso e pequenas veias de argila. Este micro-zoneamento faz com que a mesma casta apresente diferentes tamanhos de bago e ritmos de maturação distintos. Quanto ao vinho que mais me surpreendeu até hoje destaco dois. Primeiro, o Quinta dos Carvalhais Branco Especial, porque desafia as leis enológicas: estagia uma média de oito anos em barricas de carvalho francês antigas e, depois de engarrafado, continua a ganhar complexidade de forma indefinida. A segunda grande surpresa, é o Quinta dos Carvalhais Gouveio Edição Especial. Historicamente, o Gouveio nunca tinha tido a expressividade necessária para brilhar a solo. Contudo, a colheita de 2023 provou ser tão surpreendente que decidimos dar-lhe palco numa edição limitada monocasta.

A decisão de não utilizar irrigação vai contra tendências modernas. É uma escolha puramente técnica ou também filosófica?

A nossa opção de não utilizar irrigação gota a gota nas vinhas maduras baseia-se estritamente na resposta natural do nosso ecossistema. Não se trata de uma posição dogmática – até porque, ao nível da sustentabilidade, prevemos o uso rigoroso de água da lagoa exclusivamente para apoiar a instalação de vinhas jovens, mas sim de uma leitura atenta do terroir do Dão. Beneficiamos de uma localização geográfica que nos confere invernos frios e muito chuvosos. A água infiltra-se e é retida com eficácia pelos nossos solos graníticos, criando uma reserva subterrânea preciosa. Quando entramos nos verões tipicamente quentes e secos da região, surge um dos fenómenos mais extraordinários do nosso microclima: uma amplitude térmica notável. Enfrentamos com frequência dias muito quentes, com temperaturas a rondar os 40°C, mas, ao cair da noite, o termómetro desce drasticamente para os 15°C. Este arrefecimento noturno permite que a videira 'respire de alívio' e abrande o seu metabolismo, impedindo que os seus ácidos naturais sejam consumidos pelo calor excessivo. É esta dinâmica térmica que preserva a frescura e a vivacidade que encontramos no mosto e no perfil final dos vinhos. Além disso, essa quebra de temperatura gera um orvalho matinal denso no final do verão. Esta humidade é absorvida pelas folhas, fornecendo a água necessária para que a planta continue a fotossíntese e amadureça a uva de forma gradual.

O projeto do Branco Especial, com envelhecimento longo e múltiplas colheitas, inspira-se em práticas antigas. O futuro da Quinta dos Carvalhais passa por recuperar o passado?

Na Quinta dos Carvalhais, o futuro nunca passa por uma recuperação nostálgica ou por replicar o passado de forma cega. A nossa filosofia assenta no que definimos como inovação com propósito: não cortamos os laços com a tradição, caminhamos de mãos dadas com ela. O Branco Especial é o exemplo perfeito disso. Um lote multi-vintage que recupera a sabedoria dos estágios prolongados para criar um perfil contemporâneo de rara complexidade. Esta visão de olhar para o passado para desenhar o futuro aplica-se tanto à adega como à nossa viticultura e ao nosso compromisso com a sustentabilidade. Um excelente exemplo é a reintrodução de ovelhas nas nossas vinhas durante o período de repouso vegetativo, no inverno. Ao diminuirmos drasticamente as passagens de tratores e a aplicação de herbicidas, evitamos a compactação do solo e o stress da videira.

Com iniciativas como o pastoreio de ovelhas nas vinhas, qual foi a prática sustentável mais inesperada que acabou por ter impacto real na qualidade dos vinhos?

Na viticultura de precisão, todas as ações de sustentabilidade estão profundamente interligadas e moldam o ecossistema como um todo. A floresta autóctone não serve apenas para equilibrar a nossa pegada de carbono. Atua como um regulador microclimático essencial dentro do nosso 'ninho entre serras', ajudando a reter a humidade e a frescura natural de que as videiras precisam nos meses de maior stress hídrico. Como todo o ecossistema funciona em harmonia, essa identidade transfere-se de forma muito evidente para o copo. Não é por acaso que os nossos vinhos mais complexos, como o Touriga Nacional ou os nossos Reservas, exibem de forma tão limpa aquelas notas a pinho, eucalipto e esteva.

Que vinho melhor define a Quinta dos Carvalhais? Ou qual o ideal para começar quando não se conhece a marca?

Se falarmos da porta de entrada para quem quer ter um primeiro contacto com a marca, a minha sugestão recai no Quinta dos Carvalhais Branco ou no Rosé da gama de colheitas. São propostas leves, frescas, intensamente aromáticas e dotadas de uma enorme versatilidade gastronómica. São vinhos ideais para conquistar as novas gerações de consumidores. No entanto, se o objetivo for encontrar o vinho que verdadeiramente sintetiza a alma profunda da Quinta dos Carvalhais, eu apontaria para os nossos tintos, em especial o Quinta dos Carvalhais Tinto e o nosso Reserva Tinto. Costumamos dizer, com muito orgulho, que estes vinhos são o 'puro Dão'. Olhando para o futuro, a nossa visão passa por consolidar e expandir o espaço fascinante das nossas Edições Especiais. Para mim e para o André Guedes, esta linha representa o território ideal para darmos asas ao espírito explorador e criativo da marca. O nosso grande objetivo é continuar a surpreender os apreciadores mais exigentes e os colecionadores, permitindo-lhes conhecer, a cada lançamento limitado, uma faceta nova e profunda deste lugar excecional.

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