Será o fim do polka dot? O reinado de Yayoi Kusama chega ao fim
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Rafaela Simões
- 27 ago, 10:34
Yayoi Kusama morreu aos 97 anos, mas deixa um legado difícil de esquecer. O polka dot terá para sempre a sua assinatura.
O legado de Yayoi Kusama
A colaboração entre a Louis Vuitton e Yayoi Kusama
Há artistas que não se limitam a criar obras, criam um universo que passa a ser imediatamente reconhecível. Yayoi Kusama fez precisamente isso. Durante décadas, a artista japonesa transformou pontos, espelhos, cores vibrantes e padrões repetitivos numa linguagem visual própria, atravessando as fronteiras da arte para chegar à moda, à cultura popular e, mais tarde, ao fenómeno das redes sociais.
Mas chegou o dia da má notícia: Yayoi Kusama morreu aos 97 anos, no dia 14 de agosto, num hospital em Tóquio, no Japão. A notícia foi divulgada esta quinta-feira, 27 de agosto, pela sua empresa, Yayoi Kusama Inc.
A equipa descreve-a como uma mulher que com uma "vida extraordinária, inteiramente dedicada à criação artística" e que nunca deixou o pincel, até aos últimos dias. A declaração acrescenta que continuou a explorar ideias de “amor para sempre e alma eterna”.
Quando uma bolinha deixa de ser apenas uma bolinha
Yayoi nasceu em Matsumoto, no Japão, em 1929, e começou a desenhar ainda em criança. Foi também nessa altura que começou a ter alucinações: as flores que via pareciam ganhar vida, falar com ela e multiplicar-se à sua volta.
Desenhar aquilo que via tornou-se uma forma de lidar com essas experiências.
Em 1958, mudou-se para Nova Iorque, determinada a escapar ao futuro que a sua família tinha imaginado para ela, e foi aí que começou a desenvolver as suas enormes pinturas Infinity Net, compostas por milhares de pequenos gestos repetidos.
Em 1962, vendeu uma dessas obras por apenas 75 dólares. Em 2014, a sua pintura White No. 28 seria vendida em leilão por 7,1 milhões de dólares, então um recorde para uma artista feminina viva.
Yayoi também criou esculturas, performances, romances e poesia. Nos anos 1960, organizou happenings controversos, incluindo performances com corpos nus pintados com as suas características bolinhas. Na Bienal de Veneza de 1966, apresentou Narcissus Garden, uma instalação composta por 1500 bolas espelhadas — sem sequer ter sido oficialmente convidada.
A obra acabou por ser interrompida pelas autoridades depois de Yayoi Kusama começar a vender as bolas a dois dólares cada, com a provocadora mensagem: “O seu narcisismo à venda”.
Era impossível ignorá-la. Mesmo que, durante muito tempo, o mundo artístico não lhe tivesse dado o reconhecimento que merecia.
Uma outsider que acabou no centro do mundo
Depois de regressar ao Japão e de atravessar períodos particularmente difíceis, Yayoi Kusama internou-se voluntariamente, em 1977, num hospital psiquiátrico de Tóquio. Ficaria a viver lá permanentemente, trabalhando diariamente no seu estúdio.
A partir dos anos 1990, a atenção internacional começou finalmente a voltar-se para a sua obra. Em 1993, representou o Japão na Bienal de Veneza com uma sala de espelhos cheia de pequenas abóboras — um motivo que se tornaria outro dos seus grandes símbolos.
Seguiram-se retrospetivas no Museum of Modern Art, em Nova Iorque, na Tate Modern, em Londres, e no Hirshhorn Museum, em Washington. As exposições passaram a esgotar rapidamente e milhares de visitantes começaram a fazer fila para conseguir alguns segundos dentro das suas salas infinitas.
A ironia do legado de Yayoi Kusama é que aquilo que começou como uma tentativa de representar uma experiência interior acabou por se tornar uma das estéticas mais comercialmente reconhecíveis do mundo.
Mais recentemente, as suas instalações imersivas, sobretudo as célebres Infinity Mirror Rooms, encontraram uma nova geração de admiradores através das redes sociais, que transformaram a artista numa verdadeira estrela global.
Será o fim do polka dot?
Provavelmente, não.
O legado de Yayoi é demasiado grande para desaparecer com a sua morte. As bolinhas já não são apenas uma característica formal da sua obra, atravessaram outros setores.
Yayoi chegou à moda através de colaborações e coleções que levaram os seus padrões para carteiras, por exemplo da Louis Vuitton, assim como vestidos, sapatos e acessórios.
Com a morte da artista, o seu reinado pode ter terminado, mas a obra não. O polka dot é o que fica do legado de Yayoi Kusama, estampado que dificilmente passará de moda (e a realeza espanhola é um bom exemplo de como há anos não deixa morrer a tendência).
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