O jejum de John Galliano nos últimos dois anos foram sofridos para quem assistiu ao último desfile do mestre para a Maison Margiela em 2024. Mas o regresso do criativo já foi anunciado... e nunca imaginaríamos que Zara fazia parte desta conVERSA.
Galliano e Zara não é apenas uma parceria. É um manifesto silencioso sobre o estado atual da indústria — e, talvez, sobre o poder silencioso das amizades certas.
Galliano sempre foi excesso. Excesso de génio, excesso de ego, excesso de história. Um criador que construiu universos onde a roupa não era produto, era delírio. Onde o desfile não era apresentação, era performance. E agora, esse mesmo imaginário encosta-se às montras de uma marca que fez da velocidade e da acessibilidade um império global.
Há quem chame a isto democratização. Há quem chame prostituição criativa. Mas talvez seja apenas realismo — com contactos no Whatsapp.
Existe uma camada adicional nesta narrativa que torna tudo deliciosamente contemporâneo: a relação de proximidade entre Galliano e Marta Ortega, presidente da Inditex. “Conheci a Marta através da MOP [Fundação Marta Ortega Perez] e das maravilhosas exposições que organiza – Steven Meisel, Irving Penn”, contou o designer à Vogue britânica. “Através dessas exposições, começámos a criar uma amizade. Gosto muito da sua abertura”, continuou.
Na moda, como na política e nos casamentos longos, as decisões verdadeiramente estratégicas raramente nascem em salas de reunião. Nascem em conversas discretas, jantares de amigos, confidências trocadas entre quem partilha não apenas visão, mas também timing.
E Marta Ortega tem uma visão.
Uma visão quase paradoxal: construir uma Zara que não seja — pelo menos emocionalmente — fast fashion. Uma Zara que aspire a ser percecionada como cultura, não apenas consumo. Como curadoria, como desejo que não viva apenas de conveniência.
É um exercício de ilusionismo corporativo absolutamente fascinante.
Porque a Zara continua a ser, estruturalmente, uma máquina de velocidade. Uma entidade que vive da repetição eficiente do novo. Mas ao aproximar-se de nomes com capital simbólico tão forte na indústria da moda, a gigante espanhola ensaia algo próximo de uma mutação estética. Não deixa de produzir rápido — apenas passa a sonhar mais alto enquanto o faz.
É fast fashion com ambições existenciais. E quem não as tem?
Neste contexto, vender a alma (criativa) deixou de ser escandaloso. Tornou-se estratégia. E (infelizmente( talvez até gesto de sobrevivência artística. O mercado da moda de luxo vive hoje num paradoxo quase cruel: precisa desesperadamente da narrativa para justificar o preço, mas depende de uma lógica industrial para justificar a escala. Designers tornam-se personagens, Casas tornam-se sociedades, e o público quer emoção com entrega em 48 horas, sem esquecer a devolução gratuita.
A colaboração soa a choque de mundos, porque o é. Mas talvez seja apenas o reconhecimento tardio de que esses mundos já colidiram há algum tempo. O fast fashion aprendeu a falar a linguagem da estética, ainda que incapaz de a compreender; o luxo aprendeu a falar a linguagem do volume. No meio, criadores icónicos reinventam-se como pontes... ou como sintomas bem vestidos.
Existe algo de perversamente fascinante em ver um nome associado à teatralidade, como se a couture se transformarsse em objeto de desejo pendurado num cabide numerado. Pode destruir a magia, mas porque distribui pozinhos a todos. A aura deixa de ser privilégio: torna-se logística.
É capitalismo com um bom styling.
Claro que há indignação. Puristas têm de defender que certos códigos devem permanecer intocáveis. Românticos têm de lamentar o fim de uma era em que a moda era sonho inalcançável. Mas talvez essa era esteja extinta ou já não existe tal e qual como gostamos de imaginar. A moda sempre vendeu fantasias... e esta embrulhou-se em negócio.
Num tempo em que se diz que a autenticidade é o novo luxo, o verdadeiro gesto radical pode ser admitir que todos estamos à venda. Ideias, talento, identidade, narrativa. Uns por milhões. Outros por um guarda-roupa farto. E se vendes a tua alma ao Diabo, que o Diabo seja teu amigo e vista Zara...
... Entretanto, enquanto debatemos ética, escala e storytelling, Galliano pode simplesmente estar a testar futuros — como sempre fez.
Afinal, ser génio na moda nunca foi sobre vender roupa. Foi sempre sobre vender tempo antes de ele existir. E nós ainda não lá chegámos...
