Desafio 21 dias: dormir cedo
Nécessaire

Deitar cedo e cedo erguer? É mentira!

Segundo a teoria dos 21 dias, este é o tempo de que precisamos para adquirir um novo hábito. E quando descobrimos que o hábito que queríamos mudar - deixar de me deitar tarde - afinal, não está errado? Somos todos diferentes e alguns de nós naturalmente ativos à noite, diz-nos a neurologista Teresa Paiva, uma das nossas maiores especialistas europeias em sono. Saiba umas verdades sobre o sono e como tudo o resto é mito.

Passei a vida a sentir-me olhada com uma certa condescendência pelo facto de nunca ter gostado de madrugar. O meu cérebro funciona mais lentamente de manhã cedo e o humor segue-o, demoro um pouco a acordar, por isso as minhas manhãs são mudas, embora a maioria julgue que é má disposição – e porquê? Porque são diferentes de mim.  Assim, guardo para as manhãs as chatices administrativas, as respostas aos e-mails e o trabalho criativo solto-o a meio e fim da tarde, quando estou no pico da atividade cerebral. Até as aulas de yoga, que faço há 20 anos, me sabem melhor ao fim do dia.

Assim, e segundo a Dra Teresa Paiva, neurologista, neurofisiologista, professora na Universidade de Lisboa e especialista europeia em sono e diretora clínica e CEO do Centro de Medicina e Sono Sleep Medicine Center e do iSleep, o centro de sono com o seu nome, o mundo divide-se, grosso modo, entre “as cotovias, os matutinos, que se deitam e levantam cedo, que são do tipo mais racional e executivo e os mochos, que se deitam e levantam tarde e tendem a ser um pouco mais criativos, adaptam-se melhor ao jet lag [confere!], mas também têm maior tendência para a depressão [para já está tudo bem].” Também, e é fácil perceber porquê, “as pessoas mais criativas são as que têm maiores níveis de consumo de café, tabaco, álcool e drogas, e todas estas estragam o cérebro. E as pessoas que bebem à noite dormem pior: o álcool torna o adormecimento mais fácil, mas o sono é mais superficial, a sua parte profunda vai ser reduzida ou não existe. Além de que diminuem os reflexos respiratórios e aumentam as apneias, o ressonar e a parte dos sonhos não muito fantástica.” Uma dica: se tem tendência para a insónia ou para ressonar, deve beber álcool até às 18.00 horas, por aí.

Porque é que são tantos os escritores, os músicos ou os artistas plásticos que trabalham de noite, por exemplo? E porque é que temos de ser todos madrugadores? “Não temos. Basicamente, cada um tem as suas próprias necessidades de sono”, diz-nos logo à partida Teresa Paiva. Por sorte, a minha profissão sempre conviveu com as redações da imprensa escrita onde não há viv’alma antes da 10 da manhã. E não tem que ver com boémia, nada disso, mas com a natureza de quem gosta de levar o seu tempo, e não ser levado por ele a ditar-nos ordens do que é certo e do que é errado. Até porque trabalhar com escrita e com pensamento, se este tiver um mínimo de reflexão, não é quando se quer, é quando se pode.  

E já pensou que quase tudo o que é interessante se passa ao serão: das séries e filmes, aos concertos e peças de teatro e de dança, dos jantares aos bons vinhos, às conversas com amigos ou em família? Claro que podemos fazer isto tudo às nove da manhã, mas não seria a mesma coisa, pois não?

Sou “naturalmente noctívada” é como a Dra Teresa Paiva me define – e fico feliz quando a própria se diz fazer parte do mesmo grupo, o que me deixa menos só neste tema, como de costume.  A própria palavra noctívaga tem uma conotação negativa. Como se só significasse festa, copos, cigarros, e outras alegrias recreativas. Embora também possa ser, não é o caso: é estar em casa, mas não ir para a cama às horas das crianças e dos velhotes. Mas a minha mãe, por exemplo, tem 80 anos e lê livros e jornais até à uma da manhã. De onde é que eu devo ter vindo?

“Como é noctívaga não gosta de blackouts, gosta de ir acordando lentamente com a chegada do dia”, acrescenta-nos a especialista. E confere! Não gosto nem de cortinados, nem estores de nenhuma espécie, muito menos fechados quando durmo. Outra solidão, ainda mais quando se tem de partilhar quarto. “Todas as pessoas deviam acordar como vemos nas séries inglesas: com o mordomo a abrir as janelas lentamente”, diz em tom humorado. “As pessoas noctívagas devem dormir com as janelas abertas.”

A sociedade está toda construída à volta dos madrugadores, esses arautos do trabalho e da produção, e que tanto devem ter dado jeito aos patrões todos estes séculos.  Nós fazemos isso tudo, só duas horas depois, acham que pode ser? Pois é, oiçam a especialista: “Se conseguir, não deve tentar trabalhar muito cedo, porque tem um cronotipo noctívago.” Eu não tento, mas às vezes tem mesmo de ser. “Levantarmo-nos de madrugada é muito estúpido… E ainda por cima agora há a mania de ir logo fazer ginástica a seguir!”, diz a médica a rir-se. “Levantar antes das seis da manhã também é prejudicial! Há estudos sobre isso, sobre o sono dos camionistas, por exemplo, mas lá está, tem de ser visto caso a caso, porque há sempre exceções a estas regras.” E acrescenta: “Sabe, as pessoas nos extremos desta natureza são sempre em menor número.” Como sempre, os diferentes são sempre olhados de soslaio até alguém achar que podem ter piada precisamente por serem diferentes.

Nós devemos dormir umas certas horas, entre sete e oito, “e devemos ter horários regulares porque o nosso corpo é, todo ele, cheio de relógios, mesmo os nossos genes, os nossos órgãos são relógios, o baço, o fígado, os pulmões, a pele. Sempre acertados por um núcleo supraquiasmático  [isto é, um centro primário de regulação dos ritmos circadianos mediante a estimulação da secreção de melatonina] e que é uma espécie de chefe de orquestra que regula todos os outros relógios periféricos, da produção de hormonas, à divisão celular, ao metabolismo dos líquidos e dos hidratos, à criatividade emocional e cognitiva, para que funcionem de forma enérgica e equilibrada – e é contrabalançada pela luz do sol”, explica a Dra Teresa Paiva. Por isso, e devido à importância para a divisão celular do descanso à noite, “as pessoas sem horários regulares de sono, por exemplo as que trabalham por turnos, um dos seus grandes riscos, é precisamente o cancro.”

Apesar de feliz por não existir nada de errado com o nosso sono, a Dra.Teresa Paiva deixa-nos conselhos: “Em vez de achar um esforço, deve, no entanto, deitar-se antes da uma hora da manhã e tentar dormir com umas cortinas transparentes e não com a luz toda, para poder manter um horário mais ou menos certo. E deve pensar que essa é apenas uma atitude inteligente.” Acrescenta: “isto é para pessoas como nós, os outros devem mesmo dormir com as cortinas fechadas.” Adoro quando fala no plural: “Se não tiver cuidado, eu também me deitava mais tarde, o relógio biológico tem tendência a deslizar, mas deixamos de ter uma vida compatível com um quotidiano saudável e isso, sim, pode pôr em risco a saúde.”

Ok, uma da manhã é exatamente a hora em que gosto de me deitar. E serão verdadeiras aquelas regras higiénicas a ter antes do sono, como não olhar para écrans ou comer antes de dormir? “Não se deve comer duas horas antes de dormir, para se deitar com o estômago razoavelmente vazio”, confere. Assim como não deve ver televisão na cama, “a cama é para dormir, ter relações sexuais e ler, por exemplo, a televisão na cama faz mal por causa dos olhos. O ideal é adormecer sem nada, não precisa de chuchas, todas as dependências são negativas! E o mesmo é verdade com a música a tocar, garantidamente essas pessoas dormem pior.” E porquê? Porque as luzes no écran dos aparelhos eletrónicos “incidem nos olhos e bloqueiam a melatonina, a hormona que diz ao nosso corpo que são horas de dormir. A adição ao telemóvel pode ser uma coisa assustadora”.

“Para ser um sono de beleza, este precisa de ser bom – convém só estabelecer um limite, percebe?”, diz-nos em modo de despedida. Guardei esta sua frase maravilhosa que surgiu a meio da nossa conversa, com que quero finalizar este artigo: “Os romanos usavam a cama para fazer tudo, de comer a estar com os amigos e tudo e mais alguma coisa… Bom, há quem diga que o que não merece ser feito na cama, não merece ser feito sequer.”

 

 

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