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Carros e Norman Foster? É levar a família ao Museu Guggenheim de Bilbao

Motion. Autos, Art, Architecture é uma das exposições do ano e acolhe toda a família. Aqui mesmo ao lado, no Museu Guggenheim de Bilbao, uma viagem pela história do design automovel vista pelo bom gosto de sir Norman Foster. A Versa voo para lá, e ainda trouxe uns ensinamentos para o futuro desta cabeça brilhante.

“A mobilidade está em constante evolução”, diz Norman Foster aos jornalistas de todo o mundo que se reúnem na apresentação da sua exposição no museu Guggenheim de Bilbao. Recorda como, quando o automóvel surge, visível logo na primeira sala, considerou-se que este “embelezava a cidade, limpava a cidade, porque ninguém teria mais memória de carcaças a apodrecer nas bermas das estradas ou das doenças dos animais. A cidade passou a estar congestionada por cavalos mecanizados, por assim dizer”, diz-nos no seu tom pausado, Norman Foster, no alto dos seus 87 anos.

Concebida e desenhada por Norman Foster, e comissariada a meias com Lekha Hileman Waitoller e Manuel Cirauqui, do Museu Guggenheim Bilbao, e uma equipa da Norman Foster Foundation, esta exposição é uma viagem através da nossa civilização - evidente mesmo para os menos entusiastas dos carros. Celebra a dimensão artística do automóvel, a relação entre tecnologia e a arte e como as disciplinas se cruzam quando se pensa num veículo que, para começar, apenas nos pretendia levar do ponto A ao ponto B, mas hoje é indissociável das nossas vidas – e os portugueses que o digam. “Tomámos o carro como um dado adquido, mas ele não só transformou o planeta, como vai continuar a fazê-lo”, avisa Foster.

Podem admirar-se cerca de 40 modelos de automóveis, espalhados por dez salas, uma seleção dos melhores segundo critérios de “beleza, singularidade, progresso técnico e visão de futuro”, lemos na apresentação, enquanto se celebra o seu carácter escultórico. Por isso, aparecem rodeados de importantes obras de arte, da pintura, da escultura, da arquitetura, da fotografia e do cinema. Assim, vemos um Volkswagem embrulhado pelo artista Christo, as aguarelas coloridas de Warhol ou a fotografia de Margaret Bourke-White ou de Andreas Gursky, criações de Ed Ruscha, desenhos, as leves esculturas de Calder, as menos leves de Boccioni ou de Brancusi, mas em todas está subjacente a ideia de movimento. Esta é “um dos projectos mais complexos nos 25 anos de funcionamento deste museu”, admite o seu director.

O amor aos carros

O primeiro carro que Norman Foster conduziu, conta-nos, foi um Maurice de 1935, “do ano do meu nascimento”, mas o primeiro “carro de família foi dos anos 50”. O primeiro carro da sua colecção pessoal que inspirou esta exposição foi um Jeep, “um muito parecido está numa das últimas galerias, da Americana.” Mas se tivesse que escolher apenas um carro, “reanimaria um Dymaxion original criado por Buckminster Fuller, que era muito amigo de Henry Ford, por isso tem o mesmo motor e a mesma transmissão. Mas devido à sua forma simplificada e extraordinária, andava mais depressa com menos combustível e levaria mais pessoas. Era um protótipo, era um modelo daquele tempo, e eu tive o privilégio de trabalhar com o Bucky nos seus últimos 12 anos, por isso seria uma homenagem a um mentor, um mestre. Um exercício de como fazer mais com menos. E essa é talvez a grande mensagem dos dias de hoje: temos de fazer mais com menos, ter mais mobilidade, mas com menos risco, a consumir menos energia - mas com mais diversão.”

É fácil de perceber porque Norman Foster, o famoso artista e designer de produto, que sabemos adorar carros e aviões, e pilotou alguns dos seus modelos mais incríveis, também aqui quis, como afirma, “levar os seus prazeres a sério.” Conforme andamos pela galerias fora “vemos a personalidade e a emoção destes objectos extraordinariamente belos, que estão ao mesmo nível que as peças de arte e de arquitectura, há uma sinergia cultural”. Porque, para Foster “um carro não é apenas um carro, é um artefacto com significado”, aliás, através dos carros, “percebem-se as diferenças entre nações.”

A importância do design para o futuro

Estamos a entrar numa nova era por isso esta exposição é quase “um requiem pela idade da combustão. E que lições aprendemos do passado?”, pergunta Norman Foster. E como será o futuro?, perguntamos nós. “As nossas vidas vão ser cada vez mais aceleradas, a mobilidade será hipersónica ou, por outro lado, seremos estacionários devido à realidade virtual e, através de novas formas de mobilidade autónoma, tudo nos será entregue à porta de casa. Andaremos mais rápido virtualmente, mas estaremos fisicamente parados.” E é isso que esta exposição também nos leva a reflectir, assim como  nos leva ao passado e como “os museus têm uma grande responsabilidade, a cultura é, e será fundamental para a nossa civilização.”

“Se olharmos para os carros modernos cada vez mais se parecem uns com os outros, o mundo está mais globalizado e standardizado, mas será que no futuro seremos transportados pelos nossos carros que também serão as nossas salas de estar e os nossos quartos? E as empresas de seguros serão uma coisa do passado, porque será uma condução sem risco? Ou ficaremos mais vulneráveis aos ciber-ataques? Levanta questões muito interessantes. E é claro que há visões pessimistas e optimistas, eu acredito apaixonadamente que o futuro é sempre melhor, por isso acho que estamos à beira de qualquer coisa muito excitante e positiva.”

E a pandemia, acrescenta, “não veio mudar nada, só amplificou as tendências que já lá estavam. E vai matar a cidade? Esqueçam! A cidade será o nosso futuro, a urbanização, gostemos de ouvi-lo ou não, são elas que criam a riqueza, a oportunidade e a inovação, e aumenta a esperança de vida – por isso é que toda a gente migra para a cidade, é a nossa vida, gostemos ou não.”  E acalma-nos os esperanças mais ansiosas: “Se a história do design provocou uma certa poluição, também será o design a tirar-nos dela, para um futuro melhor. Por isso, para mim, é uma actividade absolutamente central. Tudo o que vemos, tocamos, sentimos, que observamos da janela, foi desenhado, bem, mal ou de forma medíocre, mas é fundamental.” 

Ele, por seu lado, trabalha mais e mais com sustentabilidade em parceria com as Nações Unidas: “Trabalho com as cidades, com arquitectos e urbanistas. Se a limpeza da cidade de Nova Iorque trouxe os castores de volta à cidade, há uma oportunidade enorme de trazer biodiversidade e a natureza de regresso à cidade. Estamos a provar agora que, com um micro-reactor e uma bateria nuclear do tamanho de um contentor, podes dar energia a todo um evento de corrida de automóveis, podes converter água do mar em combustível para jactos, a nanotecnologia consegue fazê-lo de forma limpa. E vamos poder ouvir os pássaros e não aquele ruído das corridas, que todos conhecemos, mas que as novas gerações já não o vão reconhecer num novo, pacífico, silencioso e maravilhoso mundo.”

 

 

 

 

 

 

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